Tradução livre do artigo original Inside the walls of a libertarian ideology, publicado na revista ICSA Today, vol. 7, n. 2, 2016, p. 6-9 e disponível em http://www.icsahome.com/articles/inside-the-walls-of-a-libertarian-ideology-doc
Era
1998 quando, aos 18 anos de idade, fui apresentado a assuntos
espiritualistas, por um parente que me mostrou o livro Projeções da
Consciência, uma coletânea de experiências fora do corpo (EFCs) de
Waldo
Vieira. Enquanto lia, caí no sono e - para minha surpresa - senti que
me separava domeu próprio corpo [1]. Senti a experiência de maneira tão
real como se estivesse acordado. Embora cético e anti-religioso, eu
precisava reconhecer que havia tido uma experiência "de êxtase" ou
"mística" e interessei-me em aprender mais sobre ela. Comecei a assistir
às palestras gratuitas do Instituto Internacional de Projeciologia e
Conscienciologia (IIPC), entidade do próprio Vieira.
Em
essência, o convite básico da Conscienciologia é para que você estude
as manifestações sobrenaturais com um espírito científico, sem verdades
inquestionáeis, e baseado em suas próprias conclusões e experiências,
como um meio de autoconhecer-se e desenvolver-se. Era uma mensagem
sedutora para um adolescente ávido por autodescobertas.
Pelas
semanas seguintes após minha EFC, tive algum sucesso em repetir a
experiência em casa, usando procedimentos tão simples quanto
concentrar-me na experiência antes de dormir. De vez em quando assistia a
algum curso do IIPC, nos quais os professores enfatizavam que era
necessário ter uma mente aberta mas manter o senso crítico. Minha
participação nos cursos não era obrigatória para esse desenvolvimento,
pois eu poderia tomar anos apenas para ler as volumosas publicações por
conta própria e práticar as técnicas lá propostas. Mas eu poderia,
mesmo? Foi assim que comecei a me envolver com o grupo.
O primeiro passo da Conscienciologia é introduzir ao visitante uma visão de mundo chamada de paradigma consciencial.
É uma síntese das opiniões de Vieira, erroneamente apresentadas como um
"consenso entre pesquisadores". É basicamente um modelo segundo o qual o
ser humano é, na essência, uma consciência imaterial, envolvido por
quatro corpos (físico, energético, emocional e mental). Esta consciência
segue por uma série de reencarnações e interage em múltiplas dimensões.
Conscienciologistas chamam isso de uma "verdade relativa de ponta" que
deve ser verificada através da experiência pessoal.
Se
você é espiritualista, pode ficar estimulado com o discurso
cientificista que eles utilizam para explicar suas experiências. Se não
for, você pode, ainda assim, dar-lhes o benefício da dúvida. E assim que
as pessoas acabam aceitando essa visão demundo. Minha crença de que eu
saí do meu corpo, passei por paredes e flutuei por aí convenceu-me de
que o IIPC estava certo. Eu não estava em um ambiente verdadeiramente
científico, onde as afirmações precisam ser submetidas a processos de
validação mais rigorosos. Então acabei seguindo a vida confortavelmente
com meu novo senso de imortalidade e construindo meus estudos baseados
no discurso conscienciológico. Logo em seguida, decidi me tornar um
voluntário da organização.
Este
processo é como a Conscienciologia me tornou "livre". Eu estava livre
da necessidade de explorar outras disciplinas. Embora todos
concordássemos que as pessoas devem estudar de tudo, nós tomávamos como
natural o fato de que as aulas de Conscienciologia são estruturadas em
torno dos seus próprios livros e visão de mundo, com pouco ou nenhum
diálogo com campos independentes. Portanto, não me preocupei com as
"ciências convencionais" e acabei acreditando que minhas habilidades
intelectuais e comunicativas eram conhecimento científico avançado. Era
suficiente para impressionar novos estudantes, abrir espaço na mídia e,
portanto, retroalimentar minha autoimagem distorcida.
É
por tudo isso que comparo a Conscienciologia com um castelo. Eu e
muitos outros estávamos impressionados pelo seu charme, sem perceber que
seus muros eram fortificados e altamente segregadores. No princípio, me
beneficiei do poder do castelo e não me senti constrangido. Eu estava
impressionado pelo que pareciam ser experiências paranormais. Junto com
outros estudantes, me senti persuadido, confortado e esclarecido por
aquela mistura de psicologia popular e senso comum espiritualista.
Evolução da Conscienciologia
A
Conscienciologia provavelmente seria inovensiva se fosse apenas uma
escola de autodesenvolvimento. Embora as pretensões científicas da
organização são ingênuas, os voluntários sinceramente acreditam em
oferecer aos estudantes um meio de desenvolvimento pessoal. Mas a
Conscienciologia não é apenas isso. Ela tem coisas para dizer sobre cada
aspecto da sua vida! Algumas palavras sobre a história do grupo podem
ajudar a clarificar como os seus pricípios, originalmente progressistas e
democráticos, deram lugar a práticas conservadoras e sectárias.
Vieira
começou, em 1980, como líder de um pequeno grupo de entusiastas que
gostariam de entender os fenômenos paranormais. Por direcionar-se a um
campo de fronteira, sujeito a discriminações, Vieira e seus colegas
desenvolveram uma relação de mútua proteção e admiração. Logo eles
passaram a acreditar que estavam anunciando novos conhecimentos que
resgatariam as pessoas da escuridão. Vieira, um especialista autodidata
no campo das EFCs, passou a ser visto por seus colaboradores como um
mestre espiritual, dando conselhos sobre tudo, desde saúde, lazer,
educação, trabalho até casamento e vida sexual.
Em
1991, aquele grupo informal se transformou em uma organização sem fins
de lucro. Com isso vieram as pressões normais de qualquer empreendimento
econômico, mantido por voluntários, que agora precisavam ser motivados
para cuidarem de novas funções de administração e vendas. A essência das
publicações mostra como a organização mudou de um grupo de estudos
independentes para uma escola de auto-ajuda - provavelmente uma
atividade mais ampla e lucrativa [2]. A Conscienciologia, assim,
tornou-se um sistema moral, que passou a enfatizar suas diferenças para
atrair os estudantes. Naquele novo passo fortaleceu-se o separatismo.
Nos
anos seguintes, o grupo se aprofundou no que hoje reconheço como uma
dinâmica sectária. A configuração institucional mudou de escritórios
espalhados em centros urbanos para uma comunidade em uma região rural
interiorana. Uma organização parceira - o Centro de Altos Estudos da
Conscienciologia (CEAEC) - adquiriu um lote de terras na cidade de Foz
do Iguaçu, onde construíram-se salas de aula, laboratórios
experimentais, uma biblioteca etc. Em 2002, Vieira mudou-se para lá,
substituiu algumas das lideranças locais e transformou o local na nova
sede política e cultural do grupo.
Em
2004, após me graduar em Economia, eu também me mudei para Foz do
Iguaçu, assim como outras 800 pessoas nos anos seguintes. Estávamos
construindo um experimento social, com voluntários desempenhando todo o
trabalho. Até onde me consta, nem mesmo Vieira auferia lucros daquela
organização - e digo isso na condição de ex-diretor financeiro do grupo.
Nós tínhamos nossos próprios trabalhos. O que financiava a instituição
eram seus cursos pagos e publicações. Mas o grupo também teve outras
ideias, como por exemplo o mercado imobiliário. A instituição comprava
lotes rurais nas proximidades, loteava e revendia, principalmente aos
próprios voluntários que se mudavam para lá e planejavam construir suas
casas. O mercado imobiliário brasileiro e local estava em alta. Por
alguns anos, aquele era um empreendimento rentável, tanto para os
vountários como para as instituições.
Acrescente
a isso o fato de que Foz do Iguaçu era uma cidade nova para todos nós,
acabamos tendo outros conscienciólogos como nosso único grupo social.
Eram eles nossos vizinhos, amigos e colegas para atividades de lazer;
familiares com quem dividíamos questões íntimas, paqueras, namoros,
cônjuges; nossa rede de contatos profissionais e colegas de trabalho.
Este cenário se construiu naturalmente. Nada precisou ser determinado ou
imposto.
Na
condição de voluntários, começamos a preceber que a "ciência
convencional" e a "sociedade convencional" não era para nós. Por
exemplo, namoros. Ao invés de interagir com pessoas das mais diversas,
tendíamos a namorar os próprios membros, pois não-membros normalmente se
entendiariam com nossa rotina, noites, horários de almoço e fins de
semana ocupados com atividades da organização. Eles não entendiam nossas
conversas. Eles iriam querer atividades de lazer ao invés de
"auto-análises conscienciais". Mesmo para voluntários de grandes
cidades, as opções afetivas se reduziam a meia dúzia de pessoas. O mesmo
acontecia com as amizades e opções de lazer. Mas como estávamos sob a
influência de próprio grupo, não percebíamos que aquilo era uma barreira
a nossa integração com a socieidade. Pelo contrário, nós nos sentíamos
presenteados por ter essa opção de pessoas semelhantes, enquanto a
sociedade só apresentava o caos.
O
resultado desta dinâmicaé que toda a vida do voluntário passa a ficar
visível e sob os holofotes de outros voluntários. Os membros mudam sua
vida inteira por uma causa, frequentemente ao custo de enfraquecer laços
familiares, educacionais e profissionais. Todos pagaram um alto preço
para começar uma nova vida em uma nova cidade, para estar entre pessoas
que pensam como eles, mas também são estranhos. Retornar para seus lares
de origem não seria fácil e, assim, todos permanecem comprometidos à
convicção de que a causa vale o sacrifício.
Consequentemente,
esse processo faz com que os conscienciólogos dentro de uma comunidade
se tornem muito zelosos. Eles querem a sua ajuda no voluntariado mas se
preocupam muito com qualquer coisa que você diga que possa manchar a
imagem institucional. Membros passam a fazer parte, involuntariamente,
de uma rede de vigilância dos próprios colegas, não apenas dentro dos
limites institucionais mas em todos os lugares. A vida de todos passa a
estar sujeita às discussões, julgamentos e pressões, conforme os
interesses da organização.
Como
resultado, membros aceitam a ideia de que todos são representantes da
conscienciologia 24 horas por dia. A instituição passa a discutir como
os membros devem se comportar em seus ambientes profissionais, o que
condomínios residenciais supostamente independentes deveriam decidir em
suas assembleias [3], como os casais devem resolver seus conflitos, como
negócios empresariais devem ser conduzidos, como professores e
estudantes universitários devem se posicionar, quais atividades de lazer
e locais tem boas ou más "energias" e todo tipo de assunto que diga
respeito à vida de seus voluntários. Pessoas zelosas se tornam
possessivas e invejosas. Pessoas preocupadas se tornam amedrontadas e
raivosas. Apesar de toda retórica democrática, as pessoas passam a ficar
paranoicas com a ideia de proteger a Conscienciologia a qualquer custo.
Não
é apenas a dependência grupla que criou um ambiente altamente
controlado mas, também, a história pessoal de Waldo Vieira. Ele era um
cirurgião plástico aposentado no Rui de Janeiro, com laços familiares e
comerciais com a antiga Companhia Antarctica Paulista (posteriormente
fundida com a Brahma para formar a AmBev). No início da vida adulta,
Vieira foi o braço direito de Chico Xavier, o espiritualista brasileiro
mais famoso de todos os tempos. Após aposentar-se, Vieira decidiu
aproximar o espiritualismo brasileiro da ciência. Ele provavelmente não
enxergava sua falta de treinamento cientifico como uma barreira,
tentando compensar através de uma rotina de estudos disciplinada,
acrescida de um discurso crítico e libertário contra o "conservadorismo
científico". Sua personalidade carismática e estilo comunicativo logo
atraiu seguidores da classe média. Sem ter criado muito diálogo com
grupos especializados, tais como a American Society for Psychical
Resarch, Vieira construiu suas conexões predominantemente com pessoas
leigas no assunto, autodidatas, a maioria ou todos menos preparados do
que ele, formando seu próprio grupo de autodidatas.
Três
décadas depois, lá estava Vieira em um subúrbio rural do interior
brasileiro. Ele havia imposto a si próprio uma disciplina monástica de
leitura, escrita e palestras. Mais do que nunca, Vieira tinha seguidores
aonde quer que fosse, e mesmo dentro de sua pequena casa, construída no
coração daquele complexo institucional. Ele dificilmente deixava a
organização, anão ser para ir ao centro da cidade visitar o filho ou ir
ao shopping center - uma das poucas opções de lazer que Foz do Iguaçu
tinha a oferecer a um senhor de idade. Sua esposa, em contrapartida, 40
anos mais jovem do que ele, tentava impulsionar sua carreira
profissional como psicóloga e professora, viajando pelo Brasil a estudos
ea trabalho. Eles se divorciariam em 2014, e Vieira faleceria no ano
seguinte por uma complicação cirúrgica, apesar de sua relativa boa saúde
e seu anúncio público de que teria ainda outros 7 livros para escrever,
que estavam sendo supervisionados por 40 espíritos altamente evoluídos,
Em
resumo, Vieira abriu mão de tudo o que um senhor de idade rico poderia
querer, para devotar-se a uma causa. Ele protegia seu grupo em uma torre
de marfim distante e, em retorno, recebia o tratamento de um mestre
espiritual. Considerando o tamanho do comprometimento psicológico e o
senso de superioridade que era inflado em seus seguidores, não era
surpresa Vieira e seu grupo oferecessem oposição agressiva e absoluta
contra qualquer coisa que considerassem ser uma oposição.
O processo de tornar-se uma seita
Uma
vez que os membros passam a tratar quase tudo como uma ameça, começam
as brigas constantes entre eles próprios. O grupo aprendeu com o estilo
de Vieira. Quem tivesse poder para fazê-lo, sentia-se no dever de
excluir os rivais, normalmente espalhando rumores ao grupo contra a
pessoa envolvida. Muitos membros eram facilmente convencidos por boatos
falsos espalhados pelos superiores. Outros temiam contrariá-los e
ficavam em silêncio, coniventes. Vi muitas pessoas maravilhosas e que
dedicaram sua vida à Conscienciologia serem rotuladas de traidoras,
doentes, traiçoeiras, megalomaníacas, sociopatas, ditatoriais etc.
Quando isso ocorre, a pessoa rotulada é deixada por sua própria conta,
afastada de atividades institucionais, à deriva em uma cidade estranha e
com poucos vínculos sociais.
Os
membros da organização aceitam posições de liderança em boa-fé. Mas na
condição de diretores, eles precisam trabalhar mais duro e ficam com
mais raiva dos voluntários "folgados", que nunca estão disponíveis
quando são necessitados. Eles também percebem como os voluntários tem
baixa autoestima, pouca experiência e alta admiração e dependência por
eles. Nesse balaio de gato, qualquer pessoa boa pode se tornar
autocrática.
No
meu caso, tudo o que eu queria, e muitos conscienciólogos querem, era
escrever um livro. Quando Vieira e outros voluntários originaram meus
manuscritos, fiquei autoconfiante. Mas quando colegas invejosos, com o
apoio paradoxal e autoritário de Vieira, interromperam o processo
editorial, fiquei desapontado. Quando levei a situação um passo além,
publicando por minha própria conta, fui imediatamente expulso do grupo,
com o rótulo de psicopata. Meu mundo de 14 anos de investimento e
idealização ruíram. As mesmas pessoas que me elogiavam por minha dedicação agora me consideravam egoísta e mau.
Em
uma demonstração de bondade aparente, eles me ofereceram seus serviços
terapêuticos [a "Consciencioterapia"], que logo mostrou-se ser limitada a
"autodiagnósticos" de como eu era responsável por tudo o que havia
acontecido, e como eu deveria aceitar a situação que eu
havia criado. A maneira de a instituição lavar suas mãos é
racionalizando que eu havia provocado a situação e que a resposta deles
era uma "oportunidade evolutiva" para a qual eu deveria ser grato.
A
dor é mais forte quando infligida sem intenções abertamente hostis.
Você não sabe contra quem ou contra quê reagir, tornando-se confuso, um
"morto vivo" por algum tempo. Algumas pessoas não suportam e retornam
para o grupo pedindo, de uma forma ou de outra, perdão aos seus
agressores. Me ofereceram essa oportunidade, a qual considerei um tanto
humilhante para aceitá-la.
Bancar
meus princípios foi o motivo provável pelo qual deixar o grupo me
trouxe mais alegrias do que dores. Sou grato por ter encontrado pessoas
que passaram por processos parecidos e estenderam suas mãos a mim.
Posteriormente, senti a necessidade de falar e encorajar outros a
falarem, abrindo uma espécie de "observatório" sobre a Conscienciologia.
Algumas cicatrizes podem permanecer para sempre, especialmente quando
penso que fui ingênuo o bastante para dedicar meus melhores esforços a
pessoas que não hesitaram em jogar meu trabalho na lata do lixo. Mas o
esforço não foi totalmente em vão. Foi apenas direcionado a causa
errada. Parafraseando uma ex-membra do Peoples Temple, Jeannie Mills [4], era uma causa que parecia muito boa para ser verdade, portanto, era muito boa para ser verdade!
Notas:
[1] Para um relato pessoal mais detalhado dessa experiência, ver o artigo “My First Out-of-Body Experience,” Journal of Exceptional Experiences and Psychology, Winter 2013, disponível em issuu.com/exceptionalpsychology/docs/jeep__2013__winter_/39
[2] Ver, por exemplo, O Self Perfeito e a Nova Era (Loyola, 2000) do antropólogo Anthony D’Andrea, PhD, ou meu relato sobre a evolução daquele grupo no e-book O que Penso da Conscienciologia (2015).
[3]
Em um documento institucional, a instituição foi chamada por alguns
moradores para resolver um conflito entre condôminos a respeito de se
eles deveriam ou não construir uma rua interna. Ver UNICIN (2014, January). Parecer 01/2014. Foz do Iguaçu. Disponível em unicin.org/images/pareceres/parecer_condominios-01_2014.pdf
[4] Mills, J. (1979). Six Years with God: Life inside Reverend Jim Jones’s Peoples Temple. New York, NY: A & W.
Imagens: Consciência Lúcida,


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