A CLG tem inúmeros exercícios que, no geral, ajudam a desenvolver potencialidades diversas. Os primeiros contatos costumam ser com exercícios parapsíquicos que envolvem, em linhas gerais, concentração, visualização, imaginação para perceber energias, espíritos, sair fora do corpo entre outros (a terminologia é controversa e a CLG costuma usar palavras próprias). Outra linha mais voltada aos que pretendem "seguir carreira" diz respeito ao trabalho intelectual e comunicativo. Voluntários e alunos mais frequentes são incentivados a escrever e dar aula para as instituições do grupo, que disponibiliza processos de formação nestas duas áreas. Ou seja, certamente, a pessoa sente que está melhorando em alguma coisa.
A parte não tão boa fica por conta de um discurso que tem cara de ser aberto mas é fechado, mesmo sem querer ser. O grupo não tem costume de interagir com estudos e grupos externos e acaba demonstrando um certo desconforto (no mínimo) ou preconceito (não raro) quanto ao "mundo lá fora" ou o que eles denominam "sociedade intrafísica".
Tomemos como exemplo a viagem astral, uma dos principais assuntos da CLG. Muito do que encontramos na Projeciologia vem de autores espiritualistas clássicos como Sylvan Muldoon ou Robert Monroe. Muitos brasileiros como Cesar S. Machado, Flávio Duarte, Luiz R. Mattos, Moisés Esagüí, Saulo Calderón, Wagner Borges trabalham para divulgar e ensinar o assunto ao grande público. Quem conhecer cada autor por si compreenderá pontos em comum e também nuances e diferenças entre cada autor. Penso ser algo tão saudável como uma dieta variada. Entretanto, no grupo da CLG a tendência é considerar que Waldo Vieira escreveu o que há de essencial. Conhecer os demais não é relevante (isso quando não fazem referência pejorativa, como no caso deste vídeo).
Para citar meu caso. No início do voluntariado já me interessei em dar aulas dos cursos "P1" a "P4" (atual Curso Integrado de Projeciologia - CIP). Minha tarefa era ler e dar aulas sobre o volumoso livro de Waldo Vieira. Eu me sentia aprendendo muito, como qualquer um se sente quando lê uma grande obra. Não fui cobrado a comparar com outras obras sobre o tema e forma de Vieira escrever tampouco nos estimula a "ir à fonte". Inexperiente no assunto, formado por pessoas também inexperientes, acreditei que aquela era a maneira certa de apresentar a experiência fora do corpo. Passei a dar aulas, normalmente para pessoas menos experientes do que eu, que reproduziam essa mesma forma de pensar. Com o tempo, tornei-me professor orientador, formando novos professores nesses novos modelos. Este não foi um caso isolado mas, sim, a forma como o grupo se comporta. Um ex-professor que, na época, era bastante admirado por sua cultura, confidenciou-me que, no caso dele, foi repreendido por trazer livros de outros autores ao CIP.
E assim, em várias áreas, eu (e minha percepção diz que a grande maioria dos conscienciólogos) crescia dentro do grupo, sentia aumentar minha cultura, minha capacidade expositiva, minha experiência com práticas psíquicas mas não suspeitava o quanto eu ignorava e me fechava para outros conhecimentos. E com a melhor intenção do mundo, buscava estimular o crescimento dos alunos, da forma como eu havia me formado, a forma que eu sabia: para dentro da Conscienciologia e ignorando o restante.
Existe um peso nisso. É um peso sentido mas não percebido, muito menos tornado consciente, como um peixe não sente a pressão da água que nós sentimos quando mergulhamos. Acredito que parte desse peso venha de considerar o mundo exterior uma coisa inferior. Lembro que meses antes de fazer meus primeiros cursos de Conscienciologia, li com interesse autores como Paulo Coelho e Lobsang Rampa. Depois de voluntário, já não tinha "saco" para lê-los. Só vibrava pelas últimas novidades vindas de Vieira e autores do grupo. Achava a literatura externa morosa, enrolada, incoerente.
Esse "peso" se soma a outro que é consequência. Imagino que as pessoas "normais" me vissem como arrogante, mesmo que não o falassem diretamente. Quando se é bem-intencionado, evitamos ser agressivos ou beligerantes. Mostramos cuidado e atenção. As pessoas percebem isso. Mas é inevitável tratarmos aos demais como pessoas "a serem esclarecidas". Este senso de superioridade, por mais sutil que pareça, acaba transparecendo. Jamais me importei com o que se discutia nos fóruns do Orkut, por exemplo.
E minha saída? Não foi uma saída gradual, mas uma expulsão seguida da mudança de cidade. Não tive mais contato com a doutrina e voltei minha curiosidade a estudar outros temas. A necessidade de me comunicar - eu estava distante de todo meu núcleo social - me levou às redes sociais em 2013. Por curiosidade estudei linguagens da web e logo escreveria um pequeno artigo chamado "Programação Existencial em Diagramas", uma representação gráfica da "invéxis" e "recéxis" ainda condizente com a doutrina conscienciológica. No mês seguinte, enviei uma resenha a Saulo Calderón sobre seu e-book de viagem astral, numa linguagem bem mais leve e informal do que os textos que costumava escrever. Um livro de Montague Ulman me inspirou a escrever sobre uma antiga retrocognição para o blog de Fernando Salvino, mas por uma mudança de proposta daquele website acabei deixando engavetado até publicá-lo aqui. O mesmo Salvino me falou a respeito da bibliografia sobre viagem astral compilada por Robert Bushman em 2009. Procurar por R. Bushman me levou acidentalmente ao assunto da excomunhão, tratado pelo ex-mórmon Richard Bushman, que me abriu um novo horizonte sobre os temas da Psicologia Social e dos estudos sobre sectarismo. Em fim, eu estava aos poucos "oxigenando" me conhecimento, sem perceber. No final daquele mesmo mês, a Editares se propôs a reeditar meu livro "excomungado". Por sugestão de Alexandre Rosado, li um artigo de Regis Tractenberg do primeiro congresso de inversão existencial que me obrigou a repensar a tal "invéxis". Quando voltei a reler meu livro, motivado pela segunda edição, percebi que eu já estava pensando muita coisa diferente sem nem saber como. É como se o esquema "waldovieiriano" estivesse cheio de lacunas que precisavam ser repensadas. Eu também me sentia mais leve. Só então percebi como precisava "pisar em ovos" quando vivia no grupo conscienciológico. Numa troca de e-mails com a Editares entre Abril e Agosto de 2013 percebo como já havia conquistado autoestima para não me furtar de trazer assuntos delicados à tona.
Em suma, o que há de leve é o conhecimento e os exercícios que podem ser proveitosos às pessoas em geral. O que há de pesado são as contraindicações de quem cair na esperança de finalmente ter encontrado algo que substitui todo o resto, uma espécie de "salvação", tornando-se fechado e sectário. É como um prato de arroz. Faz muito bem, se você não passar a comer só arroz!


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