Ciência da Consciência? (IV)

Continuação do terceiro artigo da série "Ciência da Consciência?"

No artigo anterior falei sobre a trajetória de Waldo Vieira, do Espiritismo à Projeciologia. Agora falarei sobre a trajetória do líder e seu grupo, da Projeciologia à Conscienciologia. Mais detalhes e referências também são fornecidos no artigo "A História da Conscienciologia revisitada" no e-book  O que penso da Conscienciologia.


A Projeciologia e as origens do grupo

Ao retornar à vida pública, na condição de autor e paranormal, Vieira não pretendia montar ou ingressar em um centro espírita ou voltar a escrever livros psicografados. Sua intenção era trazer para o Brasil e formar equipe motivada em pesquisar e desenvolver a experiência fora do corpo (EFC). Estamos no início da década de 1980 e os poucos registros que se encontram sobre o assunto são de periódicos espíritas, deixando entender que a recepção foi boa à proposta do autor. Se não fosse assim, encontraríamos um silêncio do movimento espírita ao ex-irmão ou críticas à sua iniciativa. O movimento deu boas-vindas à proposta e Vieira abriu espaço para divulgação do Centro da Consciência Contínua em revistas brasileiras ligadas ao Espiritismo e ao espiritualismo. Claro que seria utópico esperar que o movimento se reformulasse como um todo para segui-lo. Um movimento com diversos campos de trabalho consolidados não iria passar a seguir Vieira com exclusividade. Mas o diálogo acontecia. Apenas não é possível dizer se Vieira se alegrou ou se frustrou com o tamanho da adesão de espíritas à sua proposta.
Um primeiro episódio conflitivo e público desgastou a relação entre Vieira e os espíritas, ocorrido em 1983. Ao chamar uma reunião com algumas dezenas de lideranças espíritas, os relatos levam-nos a crer que Vieira adotara um discurso de rivalidade com o Espiritismo. Embora se disesse espírita, sua disposição não era simplesmente defender a Projeciologia mas, também, rebaixar a tradição espírita. Dois escritores se posicionaram por escrito em jornais da época, questionando por que Vieira falara tão pouco sobre a viagem astral em sua palestra mas se esforçara tanto para convencê-los de que "Kardec estava cheio de besteiras". No mês seguinte, Vieira publicou a "Carta aberta aos espíritas", com duas páginas inteiras nas quais se defende. Baseando-se na documentação existente, suspeito que o espíritas acharam Vieira arrogante que, confrontado por posições questionáveis, fez o papel da vítima incompreendida e perseguida. Não há mais artigos de Vieira na mídia espírita a partir daquele mês, exceto na Folha Espírita, que pareceu bem disposta em defendê-lo. Em vão, já que, a apartir da década de 90, Vieira se faria conhecido por seu tom anti-espírita, não deixando de registrar nos 700 Experimentos da Conscienciologia sua opinião de que os centros espíritas são instituições de "nível pré-maternal".
Outro episódio ocorreu logo após a publicação do Projeciologia, em 1986. Carlos Alvarado, pesquisador da experiência fora do corpo, escreve uma resenha do mesmo para o Journal of Parapsychology. Algumas críticas foram importantes, como a falta de referenciação adequada das afirmações do livro, não permitindo saber de onde o autor tira as conclusões que tece. Resenhas críticas são comuns em todos os periódicos científicos. Vieira não lidou bem com as críticas, enviando uma resposta na edição seguinte. Devido ao tamanho da resposta, o periódico suprimiu algumas partes. Vieira tenta justificar-se quanto a esse e outros pontos de Alvarado. Uma das promessas que faz, quanto à atualização bibliográfica, não é cumprida (a bibliografia do Projeciologia permanece idêntica quando comparadas as versões de 1986 com a revisão de 1999). Esse episódio dá a entender algo que não seria surpreendente: o livro não recebeu grande clamor pela comunidade científica. A obra fez, realmente, uma grande revisão da literatura sobre a experiência do corpo mas careceu de consistência quanto aos seus achados. Vieira desconsiderou trabalhos que contrariavam seus pontos de vista e, por outro lado, tomou pelo valor de face autores que confirmavam suas opiniões, mesmo a partir de obras escritas sem rigor metodológico. O valor do Projeciologia é mais literário do que científico. Tal problema deve ter sido sentido com alguma frustração por Vieira e seus colegas do Centro da Consciência Contínua (CCC).
Os dois episódios acima são exemplos registrados de uma realidade que provavelmente era vivenciada com frequência por aquele núcleo de "projeciologistas". O autor esperava maior atenção do movimento espírita e da ciência, o que não aconteceu. E a estratégia adotada em resposta a isso foi separatista -  "dar uma banana" para ambos, típico Vieira.

A Conscienciologia e a institucionalização

Precisamos refletir sobre a viabilidade de Vieira e seu grupo fazerem ciência, efetivamente. Em certo sentido, eu, você e todos nós "fazemos ciência". Dúvidas fazem parte da experiência humana e constantemente buscamos formas de resolvê-las. Neste processo têm-se os rudimentos do reconhecimento do problema, formulação de hipóteses, testagem e coleta dos resultados e análise conclusiva. A essência da ciência, que é o processo de busca de conhecimento, está em todos nós. De maneira análoga, quando crianças, no Brasil, jogamos futebol de inúmeras formas. Basta atirar uma garrafa PET vazia no chão e começa-se a competição para ver quem tem maior controle do objeto usando apenas os pés.
Mas toda atividade humana se especializa. A garrafa PET é suficiente para as necessidades imediatas daquelas crianças no pátio da escola. Não precisam nem procurar uma bola. Tanto quanto para resolvermos certas dúvidas, no nível de precisão que queremos, não é necessário montar um laboratório. Para outras necessidades, como criar uma competição entre times de futebol internacionais, requer-se uma complexidade maior: uniformes, juízes, testes antidoping, contratos, técnicos, patrocinadores que financiem, campos com padronizações etc. E para necessidades mais rigorosas, na ciência, também são necessários mais critérios: duplos e triplos cegos, registros e documentação apropriada, equipamentos, metodologia, revisões bibliográficas, financiamento.
Os métodos vieirianos não atendiam requisitos suficientes para serem publicados em revistas científicas, por exemplo. Tanto que o "propositor de 14 mil ciências" (inclusive algumas com nomes estranhos: "banheirologia" e "autodiscernimentologia") nunca teve um paper publicado em periódico científico. Brincadeiras à parte, a formação de Vieira é na prática médica e odontológica, não na prática da pesquisa.
Não tenho dúvidas que, "na intenção", o grupo adoraria recrutar cientistas para sua oficina de trabalho. Entretanto, vejo razões pelas quais isso não aconteceu e tenderá a não acontecer na presente estrutura. Ciência "com C maiúsculo" é uma atividade tão profissional quanto o futebol "com F maiúsculo", para usar a analogia acima. Ela requer dedicação integral, tempo, recursos e boa formação. Não é algo que se faça com boa intenção, de forma caseira, nos fins de semana ou no tempo livre. Com o pretexto de serem "independentes", os pesquisadores da Projeciologia não buscavam recursos, não faziam projetos de pesquisa, não procuravam bolsas de pesquisa. O CCC era um empreendimento com pouca viabilidade econômica, que sobrevivia patrocinado pelo próprio Vieira. Ao ser pouco viável, desencorajava bons cientistas que, naturalmente, se tivessem um bom projeto, iriam buscar parcerias com outras instituições que os financiassem. Ao institucionalizar-se na base do trabalho voluntário, o IIP seguiu o mesmo destino, deixando a pesquisa a critério da iniciativa individual de seus voluntários em seu agora mais escasso tempo livre, já que precisavam dividir a dedicação para as novas atividades administrativas criadas por aquele escritório de cursos.
Conhecendo a personalidade de Waldo Vieira, penso que a pouca adesão de cientistas a seu projeto logo fosse explicada não por uma insuficiência na pesquisa feita, mas por um dogmatismo dos próprios cientistas, que passaram a ser rotulados como "convencionais". O rótulo é usado inclusive em um dos primeiros livros do grupo, A Ciência Conscienciologia e as Ciências Convencionais (IIPC, 1998), da ex-voluntária Sônia Cerato. O título ilustra uma autoimagem que facilmente percebemos no grupo até hoje: a crença de superioridade da Conscienciologia sobre outras linhas do saber e o preconceito contra a ciência que não seja feita por eles próprios. Tal conduta afastava possíveis cientistas e isolava ainda mais o grupo. Se é verdade que há preconceito e pressões políticas contrárias à pesquisa das experiências sobrenaturais no meio acadêmico, não é verdade que esse antagonismo venha de toda a comunidade científica. Ao responder defensivamente contra a metodologia científica e com rótulos aplicados generalizadamente, os projeciologistas perderam o valioso apoio dos pesquisadores acadêmicos abertos ao estudo dos fenômenos parapsicológicos.

Se as possibilidades científicas do grupo não eram tão promissoras, outras possibilidades poderiam ser. O Instituto Internacional de Projeciologia passou a se dedicar ao que faz melhor até hoje, que são aulas e publicações (digo "melhor" sem entrar no mérito do conteúdo mas do retorno econômico que permite a sobrevivência institucional). Eram aulas e textos voltadas para um público leigo e com pretensões de autodesenvolvimento, ou seja, não era formação científica, mas cursos para desenvolvimento pessoal. Não há qualquer demérito nisso, mas apenas uma identidade que foi se formando sem ser devidamente compreendida. É como um curso de inglês que fala que forma "pesquisadores em linguística".
Imagem: Portal da Conscienciologia
Alunos leigos com interesses em fenômenos paranormais devem ter tido vivências no assunto. Não é raro que essas vivências tenham sido, além do mais, desagradáveis, ou acompanhadas de alguma rejeição social. Trata-se de um público que costuma buscar alguma orientação, aconselhamento, ou assistência terapeutica. E o grupo vieiriano logo foi acompanhando demandas adicionais à ideia inicial de "pesquisar a experiência fora do corpo". Se as publicações iniciais dos voluntários de Vieira foram os livros de viagens astrais de Luiz Araújo e Francisco de Biaso, os livros da época também mostram novos interesses institucionais. Tivemos Síndrome do Estrangeiro (1991), motivado pela chegada de alunos que se sentiam "peixes fora d'água", Mudar ou Mudar (1998), o primeiro relato "confessional", ou seja, no qual a autora mostra como a Conscienciologia foi um divisor de águas em sua vida, e Coragem para Evoluir (2001), que problematiza as dificuldades das mudanças da personalidade anterior para a nova, afinada aos preceitos conscienciológicos. É simbólica a sequência dessa "trilogia" dos voluntários que estavam inaugurando a Conscienciologia nas prateleiras de autoajuda das livrarias: o aluno chega se sentindo um "estranho no mundo", vai se motivando para mudar e recebendo orientações para conseguir manter a consistência dessa mudança. Os relatos de experiências fora do corpo foram deixados de lado e a instituição passou a se dedicar ao ramo de orientação de vida, que parecia atender mais às demandas de seus alunos. Uma lista da "Conscienciopedia" também ilustra essa mudança de foco, na qual a Projeciologia começou como foco exclusivo dos interesses e foi dando lugar a outros assuntos.
Imagem: Portal da Conscienciologia
Os alunos do IIPC buscavam muitas coisas no sentido da "orientação de vida", dentro de uma abordagem que acolhesse respostas relacionadas às "dimensões extrafísicas". Possivelmente queriam mais orientações do que se propriamente "pesquisar a saída do corpo". E isso muito se assemelha à demanda de quem procura o Espiritismo. Embora a doutrina tenha nascido com os interesses científicos de Kardec nas mesas girantes e sessões de materialização, logo pessoas buscando orientações "vindas do além" se aproximavam. Somemos a isso um reforço da centralidade de Waldo Vieira no grupo, reforço que tende a ser estimulado pelo mesmo e realimentado pelo grupo. Vieira passou a ser tratado não apenas como especialista na experiência fora do corpo mas em tudo. Não é à toa que ele chama a Conscienciologia de "tudologia". Pessoas vinham a ele buscando orientações sobre relacionamentos familiares, carreira profissional, casamento, saúde, muito semelhante ao público que procura orientação nas casas espíritas.
Ciência de um homem só?
Vieira diferenciava-se das pessoas comuns com sua roupa branca e longa barba, tornando-se uma espécie de guru. Como todo guru, Vieira dizia não ser um nem gostar de ser tratado como tal mas, a despeito das intenções, tornou-se o modelo a ser seguido. Não era um professor de um assunto, um modelo entre tantos. Era agora a pessoa "mais evoluída" conhecida pelo grupo, servindo naturalmente de único espelho para os mesmos. Roupas brancas, barba longa, estilo de escrita e até vícios de linguagem passavam a ser adotados por seus alunos mais próximos. A Conscienciologia servia como uma luva para pessoas que procuravam um caminho único, sem os incômodos de precisarem escolher entre pensamentos e pensadores divergentes. Com "500 verbetógrafos", "800 pesquisadores", Vieira segue au concurs na comunidade conscienciológica, sendo perceptível o a influência cultural praticamente exclusiva que o mesmo representa para o grupo.
Por esses motivos, o grupo vieirista acabou se estruturando de forma contraprodutiva à pesquisa, não só "da consciência" como de qualquer assunto. Enquanto o foco na Projeciologia se tornou secundário, o foco na "Ciência da Consciência" parece não ter acontecido. Congressos e cursos foram se estruturando nas mais diversas necessidades: "administração conscienciológica" problematizava as questões que surgiam a partir da institucionalização do grupo; "educação conscienciológica" refletia as demandas que o grupo tinha conforme se dedicava a ministrar cursos; "consciencioterapia" era resultado da demanda grande de alunos trazendo suas dificuldades psicológicas; "invexologia" veio com o gosto de Vieira pelos alunos novos, mais fáceis de serem recrutados; "grupocarmologia", que também é o tema com mais assuntos escritos na Revista Conscientia, mostrava o quanto o convívio no grupo conscienciológico gerava "pano para manga"; "tenepessologia", a prática dos passes para o escuro, que Vieira encorajava e que o voluntário podia fazer sozinho para, teoricamente, tornar-se "mais evoluído", e assim por diante, dezenas de assuntos de congressos que ajudam a refletir a personalidade do grupo. Tanto que apesar de 21 anos se passarem desde a publicação dos 700 Experimentos da Conscienciologia, estas centenas de pesquisadores e propositores de ciências novas lograram pouquíssimas interações com a comunidade científica geral. Em 2015, o painel do voluntário Ulisses Schlosser em um congresso de consciência na Finlândia foi saudado pelas comunidade conscienciológica, rendendo entrevistas em vídeo e por escrito. Como escutei de um professor universitário, "eu ajudo orientandos a preparar de paineis para congressos diariamente e a conscienciologia inteira demora vinte anos para preparar um painel só". Não é à toa que os voluntários se referem à Conscienciologia como uma "proposta" de ciência.
Imagem: Youtube
Apesar da abundância de congressos internos sobre assuntos diversificados, o primeiro Congresso de Conscienciologia foi realizado apenas em 2015, ou seja, 34 anos depois da fundação do Centro da Consciência Contínua e 21 anos depois da publicação dos 700 Experimentos da Conscienciologia. Ironicamente, foi realizado pela Academia Internacional da Consciência (IAC), instituição que havia sido forçada a se desligar do grupo original vieiriano. Na versão seguinte, percebendo que a Conscienciologia não tem boa reputação na comunidade científica, o nome foi alterado para II Congresso Internacional da Consciência. Contam os voluntários que, na visita recente da IAC aos laboratórios da IONS, o pesquisador Dean Radin pergunto a Wagner Alegretti perguntou se a instituição tinha ligação com that crazy bearded man.

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