(continuação do primeiro artigo)
Faltou falar sobre o Princípio da Descrença (PD) em si, ou seja, sua validade enquanto construção epistemológica.
Em primeiro lugar, o PD traz o entendimento de que a crença é uma manifestação ruim para o ser que procura compreender algo. Ruim em absoluto, ao ponto de pedir-se ao interlocutor para não acreditar em nada nem em ninguém. Esta visão pejorativa sobre as crenças é do senso comum mas está redondamente enganada se considerarmos o que se pesquisa sobre o assunto na Filosofia do Conhecimento.
Crença é o ponto de partida de qualquer investigação. Tudo o que consideramos verdadeiro são crenças. Investigar significa tomar uma crença e pô-la em dúvida. A dúvida é uma reação legítima que temos quando consideramos que certa crença pode estar errada. Por exemplo, uma pessoa me cumprimenta e diz "João da Silva". Não tenho motivos para suspeitar que ela esteja mentindo sobre o próprio nome. Tenho, portanto, uma justificativa razoável para acreditar que seu nome é, de fato, João da Silva. Mas isto seria totalmente diferente se eu fosse recepcionista em um baile de formatura, onde não-convidados têm motivos para mentir o nome e filar um coquetel grátis. Nesse caso, eu pediria um documento com foto. A situação seria mais rígida ainda se eu fosse fiscal de uma fronteira, onde aceitaria apenas o passaporte do cidadão, e ainda verificaria se o mesmo não é falso. Ou seja, colocar em dúvida determinada crença é um processo infinito, podendo ser colocado em teste em níveis cada vez mais profundos. Essa testagem, através de métodos, é o conhecimento. O resultado deste processo é uma nova crença, agora mais fundamentada do que a anterior.
As crenças são, portanto, não apenas necessárias como inevitáveis ou inseparáveis do processo de conhecimento. Mesmo que fosse possível, seria absolutamente disfuncional não acreditar em nada e, por exemplo, pedir um documento de identidade para cada pessoa que se apresente a você. Para agilizar seu dia-a-dia você parte de diversas pressuposições como, por exemplo, o melhor caminho de casa ao trabalho, a margem de pontualidade do seu meio de transporte, as condições climáticas, as medidas de segurança razoáveis para a sua situação, a confiabilidade do que você come e das pessoas ao seu redor etc. Todas estas são crenças mais ou menos justificadas, ou seja, com uma boa probabilidade de serem verdadeiras. Às vezes você comete um erro, como levar o guarda-chuva à toa ou não levá-lo e se molhar. Mas no geral, você acerta em sua crença sobre a previsão do tempo. Inviável seria tentar fazer uma pesquisa científica sobre todas as crenças que você e eu adotamos no nosso dia-a-dia, até que conseguíssemos assegurar uma margem de erro de 2% sobre o nosso entendimento de tudo.
Por exemplo, tome-se dois corpos cujo peso é conhecido, largados da mesma altura em uma condição de vácuo absoluto. Ao proceder-se com este experimento pode-se observar se cairão à mesma velocidade ou não. Veja este experimento sendo conduzido neste vídeo. Com este mesmo princípio se realizam experimentos em todos os campos do saber, da Química à Biologia, da Antropologia à Filosofia.
Chama atenção, portanto, que a Conscienciologia seja extremamente carente de experimentos. Mesmo o volumoso livro 700 Experimentos da Conscienciologia (Vieira, 1994), considerado o embasador da mesma, parece não apresentar um experimento sequer. Na maior parte do livro, o autor tece suas próprias observações sem sentir qualquer necessidade de fundamentar ou referenciar o que o levou a chegar a tais conclusões. Eventualmente se apresenta um procedimento, por exemplo, sobre como aplicar o "estado vibracional" ou a "técnica das 50 vezes mais", embora o autor também não se preocupe em detalhar sua própria execução dos procedimentos e os resultados. A obra e tantas outras poderia muito bem ser chamada de Opiniões de Waldo Vieira. O exemplo acabou servindo de jurisprudência para as publicações dos demais voluntários, onde predomina o exercício opinativo permeado por clipagens de revistas e jornais que ajudem a justificar determinada tese. A metodologia é vista, pejorativamente, como um capricho acadêmico da "ciência convencional", "escrava da metodolatria".
Deixa-se de compreender, inclusive, a diferença fundamental entre experimento e experiência. O assunto vem sendo problematizado há séculos. Pensadores antigos já discutiam sobre a questão de que a experiência não é um meio infalível de se aferir a realidade. Coloque a mão direita no gelo e a mão esquerda no calor por algum tempo e, em seguida, mergulhe ambas no mesmo balde de água e observará que cada uma sente uma temperatura diferente. Este é um exemplo de experimento feito para mostrar como cometemos erros ao julgar coisas com base em nossa experiência. Se a experiência fosse indicador preciso da realidade não haveria truque de mágica, ilusões sensoriais e manipulações de toda ordem.
Assim a Conscienciologia vai se desenvolvendo da mesma forma que o senso comum, quando vemos pessoas fazerem afirmações de que as coisas são desta ou daquela maneira com base em sua própria experiência de vida.
Experiências não são de todo um engano. Elas devem ser compreendidas em sua verdadeira dimensão. Experiências falam sobre acontecimentos individuais, idiossincrasias, e são um caminho para conhecer o ser em sua individualidade. Experiências são essenciais em estudos de caso, em entrevistas biográficas e nos relatos pessoais (personal accounts) da Psicologia ou da Antropologia. As experiências pessoais são a matéria-prima fundamental para o tão falado "autoconhecimento". Acontece que elas raramente são utilizadas para este fim, tanto na Conscienciologia como em demais campos espiritualistas.
No caso da Conscienciologia, o "paradigma consciencial" acaba sendo a verdade universal que molda e se sobrepõe às experiências pessoais. O aluno, o autor e o professor não são estimulados a analisar as próprias experiências mas a encaixarem o discurso dentro das verdades postuladas por este paradigma. Experiências que não confirmem o paradigma consciencial são vistas como enganos ou ilusões e, assim, se perde um grande potencial de autodescoberta.
Assista também a um vídeo caseiro que gravei em 2015. Link: https://www.youtube.com/watch?v=NSP70xQFVAg
Faltou falar sobre o Princípio da Descrença (PD) em si, ou seja, sua validade enquanto construção epistemológica.
Crenças
Em primeiro lugar, o PD traz o entendimento de que a crença é uma manifestação ruim para o ser que procura compreender algo. Ruim em absoluto, ao ponto de pedir-se ao interlocutor para não acreditar em nada nem em ninguém. Esta visão pejorativa sobre as crenças é do senso comum mas está redondamente enganada se considerarmos o que se pesquisa sobre o assunto na Filosofia do Conhecimento.
Crença é o ponto de partida de qualquer investigação. Tudo o que consideramos verdadeiro são crenças. Investigar significa tomar uma crença e pô-la em dúvida. A dúvida é uma reação legítima que temos quando consideramos que certa crença pode estar errada. Por exemplo, uma pessoa me cumprimenta e diz "João da Silva". Não tenho motivos para suspeitar que ela esteja mentindo sobre o próprio nome. Tenho, portanto, uma justificativa razoável para acreditar que seu nome é, de fato, João da Silva. Mas isto seria totalmente diferente se eu fosse recepcionista em um baile de formatura, onde não-convidados têm motivos para mentir o nome e filar um coquetel grátis. Nesse caso, eu pediria um documento com foto. A situação seria mais rígida ainda se eu fosse fiscal de uma fronteira, onde aceitaria apenas o passaporte do cidadão, e ainda verificaria se o mesmo não é falso. Ou seja, colocar em dúvida determinada crença é um processo infinito, podendo ser colocado em teste em níveis cada vez mais profundos. Essa testagem, através de métodos, é o conhecimento. O resultado deste processo é uma nova crença, agora mais fundamentada do que a anterior.
As crenças são, portanto, não apenas necessárias como inevitáveis ou inseparáveis do processo de conhecimento. Mesmo que fosse possível, seria absolutamente disfuncional não acreditar em nada e, por exemplo, pedir um documento de identidade para cada pessoa que se apresente a você. Para agilizar seu dia-a-dia você parte de diversas pressuposições como, por exemplo, o melhor caminho de casa ao trabalho, a margem de pontualidade do seu meio de transporte, as condições climáticas, as medidas de segurança razoáveis para a sua situação, a confiabilidade do que você come e das pessoas ao seu redor etc. Todas estas são crenças mais ou menos justificadas, ou seja, com uma boa probabilidade de serem verdadeiras. Às vezes você comete um erro, como levar o guarda-chuva à toa ou não levá-lo e se molhar. Mas no geral, você acerta em sua crença sobre a previsão do tempo. Inviável seria tentar fazer uma pesquisa científica sobre todas as crenças que você e eu adotamos no nosso dia-a-dia, até que conseguíssemos assegurar uma margem de erro de 2% sobre o nosso entendimento de tudo.
Experimento e experiência
Experimento é um dos tipos de procedimento com o qual se procuram investigar a verdade sobre algo. Em linhas gerais, um experimento consiste em controlar determinadas variáveis (as variáveis independentes) para observar em que elas afetam a variável que se quer conhecer (a variável dependente). Através do experimento pode-se descobrir relações de causa e efeito e as atividades que influenciam os corpos, sistemas vivos ou seres humanos.Por exemplo, tome-se dois corpos cujo peso é conhecido, largados da mesma altura em uma condição de vácuo absoluto. Ao proceder-se com este experimento pode-se observar se cairão à mesma velocidade ou não. Veja este experimento sendo conduzido neste vídeo. Com este mesmo princípio se realizam experimentos em todos os campos do saber, da Química à Biologia, da Antropologia à Filosofia.
Chama atenção, portanto, que a Conscienciologia seja extremamente carente de experimentos. Mesmo o volumoso livro 700 Experimentos da Conscienciologia (Vieira, 1994), considerado o embasador da mesma, parece não apresentar um experimento sequer. Na maior parte do livro, o autor tece suas próprias observações sem sentir qualquer necessidade de fundamentar ou referenciar o que o levou a chegar a tais conclusões. Eventualmente se apresenta um procedimento, por exemplo, sobre como aplicar o "estado vibracional" ou a "técnica das 50 vezes mais", embora o autor também não se preocupe em detalhar sua própria execução dos procedimentos e os resultados. A obra e tantas outras poderia muito bem ser chamada de Opiniões de Waldo Vieira. O exemplo acabou servindo de jurisprudência para as publicações dos demais voluntários, onde predomina o exercício opinativo permeado por clipagens de revistas e jornais que ajudem a justificar determinada tese. A metodologia é vista, pejorativamente, como um capricho acadêmico da "ciência convencional", "escrava da metodolatria".
Deixa-se de compreender, inclusive, a diferença fundamental entre experimento e experiência. O assunto vem sendo problematizado há séculos. Pensadores antigos já discutiam sobre a questão de que a experiência não é um meio infalível de se aferir a realidade. Coloque a mão direita no gelo e a mão esquerda no calor por algum tempo e, em seguida, mergulhe ambas no mesmo balde de água e observará que cada uma sente uma temperatura diferente. Este é um exemplo de experimento feito para mostrar como cometemos erros ao julgar coisas com base em nossa experiência. Se a experiência fosse indicador preciso da realidade não haveria truque de mágica, ilusões sensoriais e manipulações de toda ordem.
Assim a Conscienciologia vai se desenvolvendo da mesma forma que o senso comum, quando vemos pessoas fazerem afirmações de que as coisas são desta ou daquela maneira com base em sua própria experiência de vida.
Experiências não são de todo um engano. Elas devem ser compreendidas em sua verdadeira dimensão. Experiências falam sobre acontecimentos individuais, idiossincrasias, e são um caminho para conhecer o ser em sua individualidade. Experiências são essenciais em estudos de caso, em entrevistas biográficas e nos relatos pessoais (personal accounts) da Psicologia ou da Antropologia. As experiências pessoais são a matéria-prima fundamental para o tão falado "autoconhecimento". Acontece que elas raramente são utilizadas para este fim, tanto na Conscienciologia como em demais campos espiritualistas.
No caso da Conscienciologia, o "paradigma consciencial" acaba sendo a verdade universal que molda e se sobrepõe às experiências pessoais. O aluno, o autor e o professor não são estimulados a analisar as próprias experiências mas a encaixarem o discurso dentro das verdades postuladas por este paradigma. Experiências que não confirmem o paradigma consciencial são vistas como enganos ou ilusões e, assim, se perde um grande potencial de autodescoberta.

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