Ciência da consciência? (III)

Nos dois artigos iniciais desta série (link 1, link 2), refleti sobre questões "epistemológicas" da Conscienciologia que dificultam, ou mesmo impossibilitam, o seu desenvolvimento como "ciência da consciência". Nos dois artigos seguintes, irei apresentar fatores sociais que também interferem neste sentido. Mais detalhes sobre essa história você encontrará em um artigo de meu e-book O que penso da Conscienciologia (2015).

A trajetória de Waldo Vieira, do Espiritismo à Conscienciologia

A Conscienciologia se desenvolveu no sentido de ser um Espiritismo com mais cara de ciência. Essa afirmação é um pouco solta e não deve ser levada ao pé da letra. É apenas um esboço do raciocínio. Comecemos por seu fundador, Waldo Vieira, cuja centralidade na Conscienciologia é praticamente absoluta, frente ao qual todos os demais autores do grupo representam uma simples "nota de pé de página". 
Vieira é "cria" do Espiritismo. Seu pai abriu a primeira casa espírita de Monte Carmelo (MG), na década de 1930. Já nos primeiros anos de sessão da casa, Vieira - segundo nos conta - conduzia sessões mediúnicas. Ainda criança, foi informado por uma das médiuns que conduzia sessões da casa, que ele tinha sido o espírito Zéfiro em existências pretéritas. Embora quase não existam registros deste espírito, trata-se do benfeitor espiritual que visitava as primeiras sessões mediúnicas conduzidas pelo professor Hippolyte L. D. Rivail, que viria a fundar o Espiritismo. Foi Zéfiro quem inspirou Rivail a adotar o codinome Allan Kardec, que passaria a ser usado para assinar os livros que até hoje são a base dessa doutrina. Alguns dados sobre essa trajetória você poderá encontrar no livro de Mabel Teles, Zéfiro (Editares, 2014) e minhas resenhas sobre o mesmo para o blog Con-Ciência e para o Jornal de Estudos Espíritas.
Adolescente, Vieira foi apresentado por sua mãe a Chico Xavier, em Uberaba, sendo o "braço direito" de Chico durante mais de uma década. Escreveriam, juntos, mais de uma dezena de obras psicografadas ao longo da década de 50. Embora o Espiritismo costume retratá-lo como um mero coadjuvante, Vieira coloca a si mesmo como peça fundamental da história desse movimento, no Brasil. Há motivos para acreditar que os espíritas subestimem seu papel, tanto quanto há motivos para acreditar que Vieira o superestime. Mas o que está claro é que o Espiritismo foi parte constitutiva da identidade vieiriana, da infância até aproximadamente seus 32 anos de idade.
Aos 49, Vieira retorna ao que ele chama de "vida pública". Não podemos negar que se trata de um homem ambicioso. O "menino pobre de Monte Carmelo", como se autodefine, agora é sócio-diretor e casado com uma das herdeiras de empresas ligadas à Companhia Antartica Paulista, uma das maiores do País. Mas Vieira tinha antigas-novas ambições. Agora rico e prestes a se aposentar, seu "retorno" parece muito ligado ao resgate de tarefas interrompidas de maneira um tanto brusca em 1964.
Em primeiro lugar, Vieira era um escritor prolífico e habilidoso. Deixou quase 20 livros publicados em sua passagem pelo movimento espírita mineiro, só no início da vida adulta, que continuam a ser reeditados ano após ano pela Federação Espírita do Brasil. Em segundo lugar, Vieira também fora um médium de destaque - mesmo para quem não acredita na autenticidade da mediunidade. Uma das obras - Cristo Espera por Ti - intrigou dois especialista em Honoré de Balzac e um produtor de cinema e, sozinha, é suficiente para levantar interesse na paranormalidade de Vieira. Estes dois talentos pessoais, reconhecidos publicamente, ficaram em segundo plano por 17 anos, mais por questões conjunturais do que por preferência do autor. É difícil imaginar que uma figura pública "saia de cena" bruscamente, como Vieira, por vontade própria. 
A campanha publicitária negativa feita pela revista O Cruzeiro, suspeitando fraude nos trabalhos de materialização, em 1963, certamente abalou muito o movimento espírita uberabense. Vieira e Chico se retirariam para uma casa de veraneio em Guarujá Angra dos Reis, e viajariam para EUA e Europa no ano seguinte. Além disso, Vieira, secretário-geral da Universidade de Uberaba, tinha dois diplomas universitários e, certamente, pretensões e necessidades profissionais. Foi ao Japão fazer pós-graduação e retornou ao Rio de Janeiro para concluir seus estudos como dermatologista naquele grande centro. Casou-se e ingressou na elite paulista e carioca. 
Há que se cogitar ainda o quanto as circunstâncias políticas influenciaram nesta "retirada da vida pública" de Vieira. Não podemos esquecer que o Espiritismo carrega uma história de perseguição desde sua chegada no Brasil, nos fins do Século XIX. Foi proibido por Lei na primeira metade do Século XX como "curandeirismo". A doutrina irritava a Igreja e o Brasil ainda era um país oficialmente cristão. O casamento do Espiritismo com o Cristianismo foi uma questão de sobrevivência para muitas casas espíritas. Também irritava os médicos. Waldo Vieira certamente sentia na pele os riscos, sejam reais ou simbólicos, de estar na frente daquele movimento. Se tinha muitos amigos, é possivel que também tivesse adversários. Hipertenso, tendo um infarto aos 28 anos, não dá para imaginar que tinha uma vida mansa naqueles anos.
Além disso, Waldo Vieira fora secretario-geral de ninguém menos que o reitor da UNIUBE, um dos fundadores do Partido Trabalhista Brasileiro, várias vezes deputado, conterrâneo monte-carmelense, Mario de Ascenção Palmério. Em Uberaba, Vieira fora um dos primeiros associados ao partido getulista. Palmério foi nomeado embaixador do Paraguai em 1962, pelo Presidente João Goulart. Mas eis que a "revolução" de 1964 extingue vários partidos políticos, dentre os quais o PTB, cassando os direitos políticos de vários dirigentes, forçando alguns a se exilarem fora do país. Mario foi deposto do cargo. O infame Ato Institucional n. 5 acirra a perseguição à oposição política, a partir do mesmo ano em que Palmério se "exilaria" na Amazônia até 1979. Vieira era, então, dermatologista da alta-classe carioca e empresário ligado à uma grande empresa, e precisaria manter uma boa reputação frente aos militares pois, agora, havia muito mais a perder. Qualquer poderoso que quisesse atrapalhar os negócios da Antartica ou o trabalho do médico poderia trazer seu passado à tona e tentar enquadrá-lo como "subversivo", seja por sua filiação partidária, seja por sua religião controversa. Por vontade própria ou recomendação de colegas, seria melhor "andar na linha" de agora em diante, evitando associações com seu passado mineiro.
Não parece simples coincidência que Waldo Vieira "retorne à vida pública" (e que Palmério retorna da Amazônia) no mesmo ano em que ocorrera a abertura política brasileira. Sem risco de perseguição política e com capacidade financeira para tanto, ele já podia retomar sua "missão espiritual", o que os conscienciólogos chamam de "programação existencial". E a retomada foi - naturalmente - entre seus irmãos espíritas. Vieira "reaparece" em um congresso espírita de 1979, chama jornalistas simpáticos à causa para entrevistas e anuncia seu mais novo livro, um diário de experiências fora do corpo (EFCs), a ser publicado pela Livraria Allan Kardec Editora, bem como seu trabalho em cima de uma nova ciência, a Projeciologia, uma sub-especialidade do Espiritismo dedicada a estudar esse fenômeno (chamado na doutrina de "desdobramento" e na literatura espiritualista anglo-saxônica de "projeção" fora do corpo). Vai conquistando simpatizantes à causa, principalmente dedicados a ajudá-lo na confecção de um "tratado" sobre a EFC, os quais figuram nos agradecimentos da primeira edição. Passa a escrever artigos em jornais espíritas, dentre os quais o destaque é para a coluna mensal "Boletim de Projeciologia" da Folha Espírita, que vai de 1983 a 1990. Vieira é um espírita, autodefine-se como tal, buscando retomar o diálogo com espíritas e fortalecer o contato com a ciência parapsicológica anglo-saxônica, que certamente lhe impressionaram em seus estudos recentes e na formação de sua biblioteca. Em síntese, a inícios da década de 1980, em seus discursos e atitudes, ele parece alguém que está voltando a militar publicamente pelo Espiritismo e desejando levá-lo a degraus ainda mais elevados.

Entretanto, seria utópico esperar que o movimento espírita se reformulasse completamente para passar a seguir a Projeciologia. Trata-se de uma cultura com tradições e lideranças formadas ao longo de mais de um século, em torno da mediunidade, da psicografia, da caridade. Além do mais, Vieira estivera ausente por quase duas décadas e é difícil imaginar que fosse imediatamente alçado ao posto de uma das principais lideranças. Se por um lado, os eventos e a cobertura jornalística dão a entender que os espíritas receberam positivamente a chegada de Vieira, por outro, talvez essa recepção não tivesse sido considerada à altura pelo próprio, que agora era um senhor, mais rico, mais maduro, mais viajado, ávido para trazer toda sua bagagem de conhecimentos e mostrar todo o seu brilho. Acredito que Vieira se considerava, naquele momento, uma espécie de corifeu a trazer a pesquisa do desdobramento astral e a luz científica para dentro de sua tão estimada doutrina. E acredito que os espíritas o viram como alguém que trazia uma palavra nova para falar do estudo de um fenômeno já conhecido, e que talvez supervalorizasse seu pioneirismo no assunto. Neste debate, Vieira passou a salientar as diferenças para conseguir marcar sua posição. Considero que foi esta a estratégia que marcou o desenvolvimento do que hoje conhecemos como Conscienciologia. (Continua…)

Leia neste link uma discussão sobre outros assuntos relativos à trajetória de Waldo Vieira.
Leia neste link e neste link duas discussões sobre o livro Zéfiro, supracitado, e a suposta identidade pretérita do líder conscienciológico.

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