Segundo artigo da série.
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A jornada científica de Waldo Vieira
Na condição de líder da comunidade conscienciológica e ex-espírita, Waldo Vieira sempre retratou a si mesmo como um jovem que militava pela pesquisa científica dentro do Espiritismo. Informava, além disso, ser vítima de incompreensão por parte de muitos colegas, por aquele mesmo motivo. É dificil saber qual o real teor dessa militância. Poucas informações concretas e factuais existem para indicar pistas a esse respeito, ficando muito a cargo do imaginário de cada um. Da parte do público "vieirista", é unânime a versão de que seu líder era um visionário da ciência incompreendido por um movimento espírita dogmático. Essa incompreensão manifestava-se, ora pela rejeição às suas propostas, ora pela sua adoração como um salvador.
Um olhar mais cuidadoso do movimento espírita mostra uma história menos maniqueísta. Espíritas brasileiros importantes militaram pelo trabalho científico dentro do movimento, tanto antes quanto depois de Vieira. Fechamento é não reconhecer tais esforços. Entre os poucos livros que retratam trabalho vieiriano da década de 60, Materializações de Uberaba é talvez o exemplo mais importante o qual mostra que, o que quer que Vieira estivesse fazendo com Chico Xavier naqueles seus últimos anos de participação no movimento espírita mineiro - ciência ou farsa - contou com o apoio de seus colegas mais próximos do movimento, dentre os quais escritores e médicos. Waldo contou com a companhia e apoio de Chico Xavier e outros espíritas em suas viagens à Europa e EUA, buscando uma aproximação com a SPR e a ASPR entre outras. Posteriormente, o apoio de jornais espíritas influentes da década de 80, como o Jornal Espírita e a Folha Espírita, além da revista espiritualista Ano Zero e das editoras Allan Kardec e Universalista, bem como a origem espírita de grande parte dos colaboradores de Vieira, mostra que a versão vieiriana de ter sido um "cientista solitário" do movimento espírita não condiz com a realidade.
Mas seja qual for o motivo, em meados da década de 80, Vieira não apenas desligou-se do movimento espírita como rompeu o diálogo, passando de um discurso mais conciliador para outro bem mais antagônico. Não há fatos que sirvam para justificar essa mudança de tom, mas ela é clara, e se evidencia na comparação entre suas publicações Projeciologia, de 1986, e 700 Experimentos da Conscienciologia, de 1994. Nesse meio-tempo, alguns acontecimentos de relevância aconteceram, dentre os quais: a fundação de Instituto Internacional de Projeciologia (IIP) em 1998; o fim da coluna mensal de Vieira no Jornal Espírita e a ruptura com a Editora Universalista, em torno de 1990; e começo de um trabalho editorial feito por seu próprio grupo, que funcionaria até os fins de sua vida. Registrei essa história de modo mais detalhado em um artigo de meu e-book O que penso da Conscienciologia (2015).
Trata-se de um livreto impresso e espiralado pelos próprios voluntários de Vieira no escritório do IIP, distribuído gratuitamente aos interessados. Não deixa de ser revelador de um estilo vieiriano de ciência que ainda não estava tão claro na época, mas que se mostrou ser marca registrada do autor com o passar do tempo - a invenção de palavras novas. Esta "neologística" vieiriana chegou ao seu ápice no final de sua vida, quando a comunidade conscienciológica publicava um dicionário com 14.000 termos novos criados por Vieira.
O "Miniglossário" mostra uma intenção clara de demarcação, na qual palavras novas são introduzidas para substituir termos usados pela literatura espírita, que passam a ser considerados antigos, antiquados ou "envilecidos". "Mentalsoma" substituiria o corpo mental, "psicossoma" substituiria perispírito, "holochacra" substituiria o duplo etérico, "ressoma" e "dessoma" substituiriam reencarnação e desencarnação, "parapsiquismo" substituiria mediunidade, "amparadores e assediadores" substituiriam espíritos de luz e obsessores, e assim por diante. E "consciência" substituiria espírito.
"Conscienciologia" estaria entre os primeiros neologismos inventados por Vieira. E o livreto com algumas centenas de outros neologismos representaria a primeira das tentativas do autor de orientar seus alunos na metodologia dessa "nova ciência", que naturalmente ainda não estava clara. E a trajetória intelectual construída por Vieira para seus aprendizes ao longo dos próximos anos confirmaria essa tendência. Conforme vai se inserindo na linha de produção intelectual da comunidade conscienciológica, o aprendiz vai se formando em uma série de técnicas para dar sofisticação formal aos seus textos. Quem tem alguma formação científica logo percebe que a métrica rigorosa dos artigos conscienciológicos contrasta com a frequência de lacunas metodológicas que comprometem a consistência.
Penso que a primeira lacuna está na própria noção de "conscienciologia" como "ciência da consciência". A noção já apareceu, de passagem, em 1986, quando Vieira escreve que a Projeciologia é uma subdisciplina do Espiritismo, que por sua vez é sinônimo da pesquisa do ser, uma "espiritologia, egologia ou conscienciologia". A pouca discussão sobre a necessidade desse neologismo e a obsessão por criar palavras novas leva a um impercebido isolamento cultural conscienciológico. Precisarei de mais artigos para poder sustentar estes argumentos. Por enquanto peço apenas que me acompanhe no raciocínio sobre o neologismo "conscienciologia" em si.
O leitor pode perceber esta equivalência nos textos vieirianos. Entre edições pré e pós-glossário conscienciológico, o termo é colocado para substituir o termo espírito, que desaparece do vocabulário vieiriano. Compare, por exemplo, as edições do livro Projeções da Consciência da editora Allan Kardec com as posteriores, da editora IIPC, ou então o livro Projeciologia de 1986 com a edição revisada de 1999. Embora todo livro conscienciológico leve um glossário no final, a palavra consciência dificilmente é encontrada definida. Sequer em alguma das mil páginas dos "700 Experimentos", obra que deveria fundamentar essa ciência. Nem no livreto que busca ser mais didático, O que é a Conscienciologia (1994), nem no Conscienciograma (1996), nem sequer em A Ciência Conscienciologia e as Ciências Convencionais (1998, da ex-voluntária Sônia Cerato).
Encontrei apenas dois livros antigos do IIP, em Português, desconhecidos dos voluntários novos, que registraram este sinônimo. Os Ensaios Extracorpóreos, de Luiz Araújo (1998), definem consciência como "ego, alma, espírito, eu verdadeiro, princípio espiritual, princípio inteligente" (p. 99). Em Despertar para Nova Dimensão, de Francisco de Biaso (1996), consciência é definida como "ego, alma, essência" (p. 103).
Em edições traduzidas para o Inglês, esse problema se torna mais evidente. Na literatura conscienciológica, "consciência" é traduzida para consciousness. Entretanto, em inglês não se costuma falar "a" consciência mas, apenas, "consciência". A frase "um piloto perdeu a consciência após o acidente" traduz-se para "one pilot lost consciousness after the accident". Soa estranho dizer "one pilot lost the consciousness…" Isso faz com que, para falantes daquele idioma, seja mais natural compreender consciência como um atributo, estado, característica, propriedade do ser. Ao lerem um livro conscienciológico, tomam um pequeno choque ao encontrar o termo consciousness precedido pelo artigo the, pois o artigo é necessário para que essa palavra represente um ser, sujeito, agente, essência. Este estranhamento forçou os editores a incluírem o ítem "the consciousness" nos glossários de obras em inglês, significando: "the individual essence, the intelligent principle, in constant evolution. In conscientiology, the word consciousness (as in 'the consciousness') is considered to be synonimous with mind, ego, intelligent principle, etc., and is not being used to refer to a state of consciousness. Outworn synonyms: soul, spirit." (livro Our Evolution, 1999, p. 126) ou então a explicação mais confusa "intelligent component; soul; spirit; spiritual component; the intelligent component which animates the mentalsoma which, in turn, animates the psychosoma which, finally, animates the soma in accordance to biological laws" (livro Projections of the Consciousness, 1997, p. 231).
Em resumo, a Conscienciologia vem perpetuando por cerca de três décadas um problema que não é menor: usar consciência como sinônimo de espírito/alma. Um termo que deveria significar um atributo ou estado do ser passa a ser usado para significar o próprio ser (é como se a palavra "luz", que hoje é compreendida como uma propriedade do fogo, passasse a ser usada como sinônimo de "fogo").
Há problemas de adequação em utilizar a palavra consciência para representar a essência do ser. Observe que acreditar que nossa essência tem algo de consciente já faz parte de um viés um tanto equivocado. Parte essencial de nossa vida depende massivamente de processos inconscientes, como a praticamente totalidade da atividade fisiológica. Parte essencial de nossa atividade consciente é o descarte de informação que recebemos a todo instante por nossas vias sensoriais, bem como o descarte de memórias em privilégio daquelas que nos marcar mais, emocionalmente. Dentro da crença evolucionista conscienciológica, somos de uma mesma natureza que outras consciências, como os vírus, as formigas, as plantas, etc. Apenas somos "mais evoluídos". Portanto, para quê chamar os espíritos de consciências se, em diversos seres vivos, não há registros de atividades conscientes? Seria mais correto então dizer que somos "inconsciências".
A noção de que o ser humano será melhor se tiver "mais consciência" das coisas, até chegar num suposto estado de superconsciência sobre tudo, é uma crença compartilhada por vários espiritualistas e também replicada por Vieira. Entretanto, esta problematização me parece contraprodutiva até para os objetivos do grupo de desenvolver as habilidades paranormais. Não postulo isso como uma certeza determinista, mas como uma possibilidade que me parece coerente embora careça de discussão nos círculos espiritualistas. As ideias dominantes para desenvolver a psicocinesia, por exemplo, ou percepções extrassensoriais, se baseiam na concentração mental no foco a ser movido ou conhecido. Processos similares se aplicam à viagem astral, onde a ideia de "concentrar-se no objetivo" é central. Entretanto, nossas referências de "consciência", "lucidez", "atenção", são referências a experiências que temos durante a vigília! Portanto, a tendência, ao buscarmos esses atributos, é irmos automaticamente para estados de consciência semelhantes aos da vigília. No sentido oposto, todas as pesquisas e relatos mostram que a maioria das experiências parapsicológicas ocorrem em momentos onde esses atributos não predominam, por exemplo nos sonhos, na hipnagogia, em devaneios ou pelo uso de substâncias psicoativas. São apenas reflexões sintéticas para mostrar que o uso do termo "consciência" pode ser problemático não apenas para significar "essência" ou "ser" como pela viés que pode abafar outros caminhos "não racionalistas" importantes para a produção de experiências parapsicológicas.
Em 2014 levantei uma discussão sobre o problema de a Conscienciologia utilizar consciência como sinônimo de espírito, alma, ego, self, indivíduo etc, que pode ser lida neste link. Além do exposto lá, ao usar de maneira nova uma palavra conhecida, a Conscienciologia se torna vítima de própria ânsia inovadora. Conscienciólogos não encontrarão textos externos ao seu grupo que tratem do seu objeto de pesquisa. Não é por que não existam, mas por estarem escritos em uma linguagem diferente, uma linguagem normal. O isolamento linguístico é uma forma de isolamento cultural, como bem sabem os conquistadores que proíbem povos conquistados de falar sua língua nativa.
Se um conscienciólogo procurar artigos e pesquisas sobre consciência, não encontrará nada a respeito do seu objetivo de pesquisa, que é a essência imaterial do ser. Pois os estudos relacionados a esta essência estão designados sobre termos como espírito e alma. Mas essas palavras, o conscienciólogo aprendeu que são "envilecidas", "ultrapassadas" (outworn). Consequentemente, ele passará a acreditar que autores interessados no estudo da essência imaterial do ser são ultrapassados e que autores interessados no estudo do tema "consciência" estão "fugindo" de abordar a essência imaterial do ser. Enquanto começa a se acreditar um visionário de uma ciência avançada, de um ramo ainda intocado pela Humanidade, o conscienciólogo vai caindo na armadilha da solidão intelectual.
Para continuar a série de artigos, leia neste link sobre a trajetória científica do grupo conscienciológico.
Imagens: Amigos de Chico Xavier, IPPB, Felippe Feres, Hampton Institute
Mas seja qual for o motivo, em meados da década de 80, Vieira não apenas desligou-se do movimento espírita como rompeu o diálogo, passando de um discurso mais conciliador para outro bem mais antagônico. Não há fatos que sirvam para justificar essa mudança de tom, mas ela é clara, e se evidencia na comparação entre suas publicações Projeciologia, de 1986, e 700 Experimentos da Conscienciologia, de 1994. Nesse meio-tempo, alguns acontecimentos de relevância aconteceram, dentre os quais: a fundação de Instituto Internacional de Projeciologia (IIP) em 1998; o fim da coluna mensal de Vieira no Jornal Espírita e a ruptura com a Editora Universalista, em torno de 1990; e começo de um trabalho editorial feito por seu próprio grupo, que funcionaria até os fins de sua vida. Registrei essa história de modo mais detalhado em um artigo de meu e-book O que penso da Conscienciologia (2015).
Uma arte de inventar palavras
O começo de um trabalho editorial totalmente independente, no qual Vieira fosse o primeiro e último juiz de suas obras, foi parte marcante da trajetória desse autor. Este foi inaugurado com um livreto que também é a primeira obra a tentar dar um corpus para a recém-criada "conscienciologia". Muitos se enganam ao pensar que me refiro aos "700 Experimentos". Trata-se, em verdade, do Miniglossário da Conscienciologia, lançado em 1992.Trata-se de um livreto impresso e espiralado pelos próprios voluntários de Vieira no escritório do IIP, distribuído gratuitamente aos interessados. Não deixa de ser revelador de um estilo vieiriano de ciência que ainda não estava tão claro na época, mas que se mostrou ser marca registrada do autor com o passar do tempo - a invenção de palavras novas. Esta "neologística" vieiriana chegou ao seu ápice no final de sua vida, quando a comunidade conscienciológica publicava um dicionário com 14.000 termos novos criados por Vieira.
O "Miniglossário" mostra uma intenção clara de demarcação, na qual palavras novas são introduzidas para substituir termos usados pela literatura espírita, que passam a ser considerados antigos, antiquados ou "envilecidos". "Mentalsoma" substituiria o corpo mental, "psicossoma" substituiria perispírito, "holochacra" substituiria o duplo etérico, "ressoma" e "dessoma" substituiriam reencarnação e desencarnação, "parapsiquismo" substituiria mediunidade, "amparadores e assediadores" substituiriam espíritos de luz e obsessores, e assim por diante. E "consciência" substituiria espírito.
"Conscienciologia" estaria entre os primeiros neologismos inventados por Vieira. E o livreto com algumas centenas de outros neologismos representaria a primeira das tentativas do autor de orientar seus alunos na metodologia dessa "nova ciência", que naturalmente ainda não estava clara. E a trajetória intelectual construída por Vieira para seus aprendizes ao longo dos próximos anos confirmaria essa tendência. Conforme vai se inserindo na linha de produção intelectual da comunidade conscienciológica, o aprendiz vai se formando em uma série de técnicas para dar sofisticação formal aos seus textos. Quem tem alguma formação científica logo percebe que a métrica rigorosa dos artigos conscienciológicos contrasta com a frequência de lacunas metodológicas que comprometem a consistência.
Penso que a primeira lacuna está na própria noção de "conscienciologia" como "ciência da consciência". A noção já apareceu, de passagem, em 1986, quando Vieira escreve que a Projeciologia é uma subdisciplina do Espiritismo, que por sua vez é sinônimo da pesquisa do ser, uma "espiritologia, egologia ou conscienciologia". A pouca discussão sobre a necessidade desse neologismo e a obsessão por criar palavras novas leva a um impercebido isolamento cultural conscienciológico. Precisarei de mais artigos para poder sustentar estes argumentos. Por enquanto peço apenas que me acompanhe no raciocínio sobre o neologismo "conscienciologia" em si.
Consciência = espírito
Na literatura conscienciológica, consciência é uma palavra utilizada desde sempre para substituir a palavra espírito. Simples assim. E provavelmente o leitor não encontrará esta equivalência discutida ou problematizada em nenhuma das obras vieirianas ou dos conscienciólogos. Pessoalmente, participei de dezenas ou centenas de cursos conscienciológicos, debates internos e conversas informais de 1998 a 2012, chegando a professor orientador, conferencista, autor de livros, e posso dizer assertivamente: na comunidade conscienciológica, "consciência" é sinônimo de espírito e isso é trivial, "passa batido" entre os participantes. Só fui perceber o problema epistemológico dessa equivalência um ano depois de sair do grupo, ao estudar outras linhas de conhecimento.O leitor pode perceber esta equivalência nos textos vieirianos. Entre edições pré e pós-glossário conscienciológico, o termo é colocado para substituir o termo espírito, que desaparece do vocabulário vieiriano. Compare, por exemplo, as edições do livro Projeções da Consciência da editora Allan Kardec com as posteriores, da editora IIPC, ou então o livro Projeciologia de 1986 com a edição revisada de 1999. Embora todo livro conscienciológico leve um glossário no final, a palavra consciência dificilmente é encontrada definida. Sequer em alguma das mil páginas dos "700 Experimentos", obra que deveria fundamentar essa ciência. Nem no livreto que busca ser mais didático, O que é a Conscienciologia (1994), nem no Conscienciograma (1996), nem sequer em A Ciência Conscienciologia e as Ciências Convencionais (1998, da ex-voluntária Sônia Cerato).
Encontrei apenas dois livros antigos do IIP, em Português, desconhecidos dos voluntários novos, que registraram este sinônimo. Os Ensaios Extracorpóreos, de Luiz Araújo (1998), definem consciência como "ego, alma, espírito, eu verdadeiro, princípio espiritual, princípio inteligente" (p. 99). Em Despertar para Nova Dimensão, de Francisco de Biaso (1996), consciência é definida como "ego, alma, essência" (p. 103).
Em edições traduzidas para o Inglês, esse problema se torna mais evidente. Na literatura conscienciológica, "consciência" é traduzida para consciousness. Entretanto, em inglês não se costuma falar "a" consciência mas, apenas, "consciência". A frase "um piloto perdeu a consciência após o acidente" traduz-se para "one pilot lost consciousness after the accident". Soa estranho dizer "one pilot lost the consciousness…" Isso faz com que, para falantes daquele idioma, seja mais natural compreender consciência como um atributo, estado, característica, propriedade do ser. Ao lerem um livro conscienciológico, tomam um pequeno choque ao encontrar o termo consciousness precedido pelo artigo the, pois o artigo é necessário para que essa palavra represente um ser, sujeito, agente, essência. Este estranhamento forçou os editores a incluírem o ítem "the consciousness" nos glossários de obras em inglês, significando: "the individual essence, the intelligent principle, in constant evolution. In conscientiology, the word consciousness (as in 'the consciousness') is considered to be synonimous with mind, ego, intelligent principle, etc., and is not being used to refer to a state of consciousness. Outworn synonyms: soul, spirit." (livro Our Evolution, 1999, p. 126) ou então a explicação mais confusa "intelligent component; soul; spirit; spiritual component; the intelligent component which animates the mentalsoma which, in turn, animates the psychosoma which, finally, animates the soma in accordance to biological laws" (livro Projections of the Consciousness, 1997, p. 231).
Em resumo, a Conscienciologia vem perpetuando por cerca de três décadas um problema que não é menor: usar consciência como sinônimo de espírito/alma. Um termo que deveria significar um atributo ou estado do ser passa a ser usado para significar o próprio ser (é como se a palavra "luz", que hoje é compreendida como uma propriedade do fogo, passasse a ser usada como sinônimo de "fogo").Há problemas de adequação em utilizar a palavra consciência para representar a essência do ser. Observe que acreditar que nossa essência tem algo de consciente já faz parte de um viés um tanto equivocado. Parte essencial de nossa vida depende massivamente de processos inconscientes, como a praticamente totalidade da atividade fisiológica. Parte essencial de nossa atividade consciente é o descarte de informação que recebemos a todo instante por nossas vias sensoriais, bem como o descarte de memórias em privilégio daquelas que nos marcar mais, emocionalmente. Dentro da crença evolucionista conscienciológica, somos de uma mesma natureza que outras consciências, como os vírus, as formigas, as plantas, etc. Apenas somos "mais evoluídos". Portanto, para quê chamar os espíritos de consciências se, em diversos seres vivos, não há registros de atividades conscientes? Seria mais correto então dizer que somos "inconsciências".
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| Filme Waking Life (2001) |
Em 2014 levantei uma discussão sobre o problema de a Conscienciologia utilizar consciência como sinônimo de espírito, alma, ego, self, indivíduo etc, que pode ser lida neste link. Além do exposto lá, ao usar de maneira nova uma palavra conhecida, a Conscienciologia se torna vítima de própria ânsia inovadora. Conscienciólogos não encontrarão textos externos ao seu grupo que tratem do seu objeto de pesquisa. Não é por que não existam, mas por estarem escritos em uma linguagem diferente, uma linguagem normal. O isolamento linguístico é uma forma de isolamento cultural, como bem sabem os conquistadores que proíbem povos conquistados de falar sua língua nativa.
Se um conscienciólogo procurar artigos e pesquisas sobre consciência, não encontrará nada a respeito do seu objetivo de pesquisa, que é a essência imaterial do ser. Pois os estudos relacionados a esta essência estão designados sobre termos como espírito e alma. Mas essas palavras, o conscienciólogo aprendeu que são "envilecidas", "ultrapassadas" (outworn). Consequentemente, ele passará a acreditar que autores interessados no estudo da essência imaterial do ser são ultrapassados e que autores interessados no estudo do tema "consciência" estão "fugindo" de abordar a essência imaterial do ser. Enquanto começa a se acreditar um visionário de uma ciência avançada, de um ramo ainda intocado pela Humanidade, o conscienciólogo vai caindo na armadilha da solidão intelectual.
Para continuar a série de artigos, leia neste link sobre a trajetória científica do grupo conscienciológico.
Imagens: Amigos de Chico Xavier, IPPB, Felippe Feres, Hampton Institute




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