Ciência da consciência? (I)

Ser uma ciência dedicada à investigação da consciência está na própria raiz da palavra consciencio + logia. Mas será que é isso mesmo o que ocorre?

Uma discussão recente sobre o assunto foi levantada no grupo virtual O que penso da Conscienciologia, a qual me motivou a escrever esta série de artigos. Aproveitarei para resgatar outras discussões mais antigas levantadas pelo grupo.


O que é "consciência"?

A pergunta "o que é" é a primeira armadilha de qualquer análise. Criamos palavras para representar as coisas e, com o tempo, passamos a acreditar que as coisas são as palavras que criamos para elas. "Consciência" é uma palavra. Uma palavra que tem servido para representar algumas coisas. Que coisas são essas?
Na raiz latina da palavra temos con + scire, a noção de adquirir saber. O saber (scire) estaria solto por aí e a pessoa, através de diversas maneiras, se apropriaria deste saber, pegando-o para si (con). Daí vem, por exemplo, o uso da palavra para diferenciar se um paciente está consciente ou inconsciente. O paciente inconsciente não sabe nem percebe o que está acontecendo. O paciente consciente tem maior noção da situação. Algo análogo à atividade de conhecer. Daí derivam as noções das nossas atividades mentais conscientes e subconscientes. Os processos subconscientes são aqueles que acontecem sem que a pessoa perceba. Falamos também de estados semiconscientes, por exemplo, logo que acordamos, sem saber direito o que está acontecendo nem conseguir articular ideias quando alguém nos faz uma pergunta. Por aí é possível ter uma noção de o que as pessoas querem dizer quando usam a palavra "consciência".
Esta palavra latina passou a significar várias coisas, mas todas relacionadas a essa noção principal. Quando importada para o inglês, o termo sofreu algumas alterações para expressar estas diferentes noções. Por exemplo, quando alguém retoma a consciência após um coma, diz-se "the person regained consciousness". Por outro lado, se uso a palavra em um sentido moral, como ter consciência da preservação ambiental, uso a palavra "conscience". Mais à frente explicarei por que essa distinção é importante.
O Projeciologia: panorama das experiências da consciência fora do corpo físico (1986), é a primeira obra volumosa de Waldo Vieira, que procura ser um tratado sobre a experiência fora do corpo. Nela, Vieira ainda tinha intenção de dialogar com outros campos do saber. Nessa obra "pré-conscienciológica", a definição de consciência segue as acepções correntes, como as mostradas acima. Consciência é o "atributo do conhecimento interior da própria existência e de suas modificações, altamente desenvolvido na espécie humana; número de interconexões da memória consciente, inconsciente, intuitiva e o sensoriamento energético e informacional interdimensional com discernimento, ao se observar ou estudar um fenômeno." (1999, p. 104).
Portanto, consciência é uma palavra para se referir a uma propriedade, estado, atributo ou qualidade do ser.

E o espírito?

Sigamos o mesmo caminho, tentando não confundir as palavras com as coisas que elas representam. "Espírito" também é uma palavra latina, spiritus, que significa sopro. Desta se origina o verbo respirar, por exemplo. Parece intuitivo que se associasse a essência do ser à respiração. A primeira manifestação de um bebê que vinha à existência era a respiração. O primeiro indício de que alguém não mais existia era o de que não estava mais respirando. Este "sopro" era como uma "essência" dos seres. Não é que os seres tinham essência porque respiravam. É que a essência, o "sopro", o "espírito", era essa noção de algo "invisível" que permeava todas as coisas. A relação entre o sopro e a essência também está presente no pensamento grego, na psukhe, raiz de psique, que hoje é um equivalente aproximado da palavra mente, dando origem ao termo "psicologia".
Ao longo do tempo as palavras são usadas para coisas diferentes. Montesquieu escreveu sobre o "espírito" das leis. Falamos em ter "espírito esportivo". É como uma força metafísica que torna as coisas o que elas são. Mas a tradição latina, provavelmente ifluenciada pelo Cristianismo, também tinha forte a noção de um ser ou ente como substância, que estaria dentro dos seres humanos, uma espécie de "matéria dentro da matéria" que continuaria viva após a morte. Se não fosse assim, o que iria para o Céu ou para o Inferno? O ser humano precisava ser alguma coisa a mais do que a carne para poder ser abençoado ou castigado no pós-vida. Essa noção passou a ser representada pela palavra "alma", que deriva de anima, aquilo que da "ânimo" a nós, "animais". Por isso fazia sentido discutir se os índios tinham alma, ou seja, se eram como os europeus. Não faria sentido discutir se eles tinham espírito, já que todas as coisas têm espírito.

Nas correntes de pensamento latinas tem sido forte a noção uma "substância" que representaria a essência do ser humano. Fortemente influenciados pelo Espiritismo, por exemplo, falamos comumente no Brasil sobre "ver espíritos", ou seja, essa palavra não significa apenas uma essência no sentido "platônico", algo captado pela atividade do pensamento, designando também algo "material", que tem substância, que é perceptível. Ora tentamos explicar esses espíritos de maneira mais "química", como um vapor ou gelatina sutil, ora os explicamos de maneira mais "física", como vibrações, frequências, energias. Vemos o espírito, também, como uma "matéria", só que de natureza diferente, um "outro tipo de matéria".

Observe que as noções de psique, mente, alma e espírito não são estanques e eventualmente podem se sobrepor. O pensamento espiritualista brasileiro é fortemente influenciado pela Espiritismo, herdeiro do Cristianismo e da Metapsíquica. O Prof. Jacy Monteiro preferiu traduzir o livro The Hidden Channels of the Mind, uma das bases da Parapsicologia, para "Canais Ocultos do Espírito". Essa mesclagem entre as noções de mente e espírito, que pode parecer uma questão de mera preferência semântica, acaba produzindo contradições não percebidas pelo senso comum, e que também afetam a Conscienciologia, como explicarei nos próximos artigos.

A substituição de "espírito" por "consciência" e a origem da confusão… (leia a seguir)

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