Não creio que o problema fundamental resida em se o paradigma
consciencial está “certo” ou “errado”. Campos de
conhecimento não precisam estar isentos de erros; precisam apenas
ter mecanismos eficientes de correção e aprimoramento. O problema
reside na maneira como o paradigma consciencial é utilizado.
O paradigma consciencial pode ser visto como uma narrativa, com a
qual conscienciólogos explicam o funcionamento do mundo, dão
sentido às coisas e tomam pressupostos para a intervenção na
realidade. Mas o aluno mais atento pode perceber que ele é oferecido
pelas instituições conscienciológicas como a explicação
da realidade. Isto pode ser constatado em afirmações tão comuns de
que “a conscienciologia se fundamenta no paradigma consciencial”.
Em páginas institucionais tendem a apresentar o paradigma em alguma sessão introdutória. Ocorre que a forma como é utilizado acaba sendo um entrave para o desenvolvimento científico da
conscienciologia, fechando-a para formulações alheias e paradigmas alternativos, ou
mesmo questionamentos e análises críticas sobre o referido paradigma.
Conscienciólogos dirão que
isso não é verdade, e que sempre estão abertos a questionamentos e
novas ideias, mas a dinâmica
vai se perpetuando no sentido de manter-se aquela
verdade única e estática.
O paradigma consciencial é o
único modelo
apresentado
em praticamente todos os
livros introdutórios, vídeos didáticos e cursos de entrada das
instituições conscienciológicas.
Este fato não é visto como
um problema. Pelo contrário, as instituições solicitam aos
professores que, em trabalhos dirigido ao público iniciante, ele
seja apresentado e tomado por linha mestra da exposição. Além
disso, explicações
alternativas para os
fenômenos e experiências extraordinárias
são desacreditadas, rotuladas como “ciência convencional” ou
“religião e misticismo”. O
aluno que discorda ou procura usar outros modelos é visto como
alguém que “ainda não entendeu” ou então como uma pessoa
recalcitrante, antagônica. Como
resultado, o paradigma consciencial acaba por condicionar a
experiência dos conscienciólogos, através do viés de confirmação,
moldando as vivências que encaixem nessa narrativa e descartando
aquelas que não a confirmem, como fruto de uma “falta de lucidez”
na avaliação da ocorrência.
Assim, foge-se
da
essência das formulações
sobre “autopesquisar-se”
e “ter
as próprias experiências”. O
aluno recém-chegado vai sendo condicionado a narrar suas
experiências de modo a se encaixarem no paradigma consciencial e não
observar detalhes que possam destoar
do referido paradigma. Todo um histórico vivencial prévio passa a
ser revisto para moldar-se ao paradigma consciencial. Para
além do campo estritamente intelectual, como toda cultura cria suas
formas de socialização, a convivência no grupo vai se tornando
dependente de uma (auto)aceitação dessa visão de mundo. Os relatos
autobiográficos vão ganhando uma cara de relatos confessionais, nos
quais a pessoa narra o “antes e depois” da conscienciologia em
sua vida. O leitor pode
perceber que os textos relatando vivências pessoais na
conscienciologia acrescentam muito pouco a esta ciência, pois parece
ser dirigidos a confirmarem o paradigma consciencial, que
se
torna “a boa nova” ou a “grande revelação” a ser divulgada.
Imagem: GameChurch
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