Não apenas a Conscienciologia como as espiritualidades em geral falam muito em "autoconhecimento" e no valor da "experiência pessoal". Por outro lado, são raras as investigações em primeira pessoa, que me parecem parte essencial da autoinvestigação. Mesmo os relatos pessoais mais puros, sem análise, são curtos e, normalmente, escritos por leitores que buscam respostas, não por quem assumem o papel de formador de opinião. O predomínio, nas espiritualidades, ainda é de textos em terceira pessoa dedicados a investigar os universais. Assim, costumam cair em erro metodológico básico, traçando conclusões universais baseadas em experiências particulares.
No artigo a seguir, busquei olhar para mim mesmo. Não abri mão de fontes externas para extrair aprendizado de minhas primeiras experiências fora do corpo e de como elas influenciaram minha trajetória de vida. O artigo original foi publicado em inglês. Foi escrito para o Journal of Exceptional Experiences and Psychology (vol. 1, n. 2, p. 39-43) em 2013, com o título "My first out-of-body experience". A versão seguinte é minha tradução livre.
No artigo a seguir, busquei olhar para mim mesmo. Não abri mão de fontes externas para extrair aprendizado de minhas primeiras experiências fora do corpo e de como elas influenciaram minha trajetória de vida. O artigo original foi publicado em inglês. Foi escrito para o Journal of Exceptional Experiences and Psychology (vol. 1, n. 2, p. 39-43) em 2013, com o título "My first out-of-body experience". A versão seguinte é minha tradução livre.
Minha primeira experiência fora do corpo
Neste artigo apresentarei minha primeira experiência fora do corpo
(EFC), a qual também a considero minha primeira experiência humana
excepcional (EHE), conforme os estudos de Rhea White (1994). À
análise desta vivência, farei referência em especial ao trabalho de
Suzanne V. Brown, The Exceptional Human Experience Process: A
Preliminary Model with Exploratory Map (2000).
Tal escolha não é resultado de
um interesse puramente teórico. O artigo em questão alimentou em
mim a curiosidade para revisitar o evento marcante, ocorrido em 1998,
à procura de conhecimento adicional sobre mim mesmo. Alimentou esta
curiosidade ao estimular-me um olhar novo e diferente sobre a mesma,
portanto, modificando minha experiência daquela EFC, como um
ingrediente o qual, uma vez acrescentado à fórmula, não pode ser
removido.
O trabalho de Brown inspirou novos significados à experiência
“original”, o qual pretendo explorar neste artigo. O “objeto”
deste estudo não se presta a métodos tradicionais das ciências
naturais. Não posso “dissecar” a experiência e compará-la a
um modelo teórico, pois o que sei sobre aquela experiência é
mediado por minha própria introspecção, a qual já está
“condicionada” pelo referido modelo. Por isso não prentedo
“validar” ou “discutir” o modelo de Brown, objetivo o qual
está longe do meu alcance.
Portanto deixo de lado ideiais e propósitos mais relacionados às
ciências positivas e aceito explorar um campo onde a teoria
transforma a prática, o sujeito-pesquisador transforma o objeto
pesquisado, e a introspecção toma o posto de ferramenta essencial
da análise. Estes “problemas” que “contaminariam” um estudo
tradicional são elementos indissociáveis para o que pretendo
compreender aqui. Então, ao invés de modificar o objeto de estudo,
escolho aceitar esta problemática e seguir em frente, procurando
estar ciente das suas complexidades. O modelo de Brown me ajudou a
encontrar (ou dar) novos significados para o fenômeno conhecido como
experiência fora do corpo.
Minha primeira experiência “paranormal” ocorreu aos 18 anos de
idade, em Janeiro de 1998. Até então, “transcendência” ou
“espiritualidade” não faziam parte do meu cotidiano. Meus pais
sempre encorajaram os filhos a confiarem na liberdade de pensar, sem
convicções dogmáticas nem religiosas, nem materialistas. Mas os
assuntos “sobrenaturais” não chegavam a ser tópicos usuais em nossas conversas.
Meu pai estava divorciado há 4 anos, aposentado, com filhos já
adultos. Ele buscava estudos que lhe ajudassem a descobrir ou dar
novos significados à vida a, nessa procura, apresentou-me o
tema da experiência fora do corpo, com abordagem a qual considerei
sensata, sem apelos ao convencimento impositivo ou explicações
mágicas. Reservei um dia para ler o livro que me emprestara,
Projeções da Consciência (Vieira,
1997). À noite, após a leitura, tive a experiência ao cair no
sono.
É normal sonharmos com assuntos que vivenciamos no dia anterior. Foi
o que me aconteceu. Tive imagens oníricas e ideias sobre os tópicos
que acabara de ler, durante o estado hipnagógico. Porém, ao invés
de entrar em sono profundo, despertei, com uma vibração intensa em
todo corpo e a sensação de estar sendo puxado em direção ao teto,
por uma espécie de força antigravitacional. Procurei não oferecer
resistência. Eu queria aquela experiência. Não sentia os braços,
ou melhor, sentia os braços sem sentir o tato nem o seu peso. A
cabeça “não física” oferecia resistência para “desencaixar
do corpo” e, à mínima tentativa de “decolagem”, produzia
zumbido grave e intenso. O mais surpreendente, no entanto, ocorreu
com as pernas. Senti nitidamente como se alguém as erguesse, uma
após a outra, deixando-as levitando em um ângulo de 45 graus com o
solo. Naquele momento eu sentia minhas duas pernas físicas deitadas
na cama, e duas pernas “não físicas” flutuando em uma posição
de trendelenburg. Gradualmente as sensações não corporais cessaram
e voltei a sentir meu corpo, deitado na cama normalmente. A
experiência deve ter durado 1 ou 2 minutos.
Eu estava inteiramente desperto e absorvido pela experiência,
sentindo grande bem-estar e disposição. Não havia como negar: eu
acabava de passar por algo novo e altamente motivador. Ao longo
daquele mês, tive mais 3 ou 4 vivências semelhantes, que apenas
reforçaram o desejo por mais.
Podemos encontrar nesse episódio elementos descritos por Brown no
Estágio 1 (Evento/experiência inicial). Eu havia vivenciado
algo que desconstruiu minha visão de mundo anterior. Eu estava
diante de um “fato”, o qual acredito ter aplicado o devido juízo
crítico, muito embora não negue que prefira esta explicação de
mundo a outra regida pela noção da vida como um produto
inteiramente biológico e cultural. E se eu estivesse louco? Bom, se
fosse este o caso, eu certamente desejava mais daquela loucura.
A ausência de parâmetros ou ideias previas a respeito do assunto
diminuiu a chance de encaixar a vivência em explicações já
conhecidas. Eu não podia simplesmente “defender-me” através de
minhas ideias prévias de mundo tradicionais, a para ser sincero, eu
tampouco queria. Por que eu haveria de querer meu status quo
anterior? Acredito que isto
favoreceu a evolução do Estágio 1 para o Estágio 2
(Procura por reconciliação).
A experiência estava deslocada com relação ao meu contexto social.
Ora provocava mera curiosidade, ora perplexidade ou estranhamento.
Logo aprendi a ser discreto com relação ao que pensava. De nada
adiantaria ser uma pessoa exótica no meio onde vivia ou na
sociedade como um todo.
Nos meses seguintes, fiz da leitura a principal companhia para me
aprofundar no assunto paranormais. Várias circunstâncias
convergiram para me aproximar do grupo cujo livro desencadeou a
projeção extracorpórea original. Meu pai, uma das poucas pessoas
com quem abordava o assunto, também seguia o caminho, emprestava-me
livros, apresentava-me pessoas. A abordagem daquela escola era do meu
agrado. Os estudantes eram convidados a formar suas ideias através
do juízo crítico, lógica e racionalidade, sem recurso a
explicações místicas ou mágicas.
Graças àquela aproximação eu tinha um mundo inteiro e novo
descortinado à minha frente. A projeção fora do corpo era apenas
um entre os diversos assuntos relacionados ao desenvolvimento das
habilidades extrassensoriais, e este desenvolvimento era apenas uma
parte do desenvolvimento pessoal integral. Era como se, a partir da
descoberta de uma flor, eu tivesse sido apresentado a um jardim
inteiro. Da aceitação íntima de um evento, expandi meus interesses
para o desenvolvimento de toda uma visão de mundo sobre o que é o
Universo, a vida, conhecimento, ciência, ética e sociedade.
Concomitante a esse estágio de “reconciliação” com a própria
experiência, encontrava-me em um período de transformações
pessoais em geral. Devido a um intercâmbio no Exterior, no ano
anterior, eu estava mais afastado de antigos amigos. O período
escolar se encerrara e eu tinha um ano pela frente para estudar para
o vestibular, mas eu estava confiante que conseguiria passar sem
grande dificuldade. Havia ficado um ano longe dos meus estudos de
violão clássico, atividade a qual me dedicara muito anteriormente,
mas agora tendia a descartá-la como carreira profissional. Portanto,
1998 foi um ano de poucas exigências ou demandas que me conectassem
à minha vida anterior. Em boa medida eu podia começar uma “nova
vida”, e foi ao longo daquele ano que cresceu em mim a ideia de
ter, no novo círculo de convívio “parapsíquico”, o núcleo de
referência principal dessa nova etapa.
Em 1999 ingressei no trabalho voluntário daquela entidade,
fortalecendo meu vínculo com o grupo. Eu estava em paz com o fato de
ser diferente, e grato de poder abraçar essa diferença com
intensidade até maior do que muitos colegas, impedidos por
exigências sociais, familiares ou profissionais. Dentro daquele
grupo eu podia ter orgulho de mim mesmo. Eu entrava em um meio onde
poderia explorar a vivência em contexto mais amplo e promissor. A
dificuldade de tratar do assunto na “sociedade lá fora” não era
mais um fator preocupante, pois eu tinha a partir de agora um novo
círculo com quem discutir.
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| Dream Walking (Erik Johansson) |
(Entre dois mundos) é onde se processa
com mais intensidade a dissonância entre antigos e novos
posicionamentos, dissonância a qual parecia estar sendo
problematizada naquele ponto da minha vida. Até então o assunto
girava em torno de uma visão de mundo que comportasse a experiência
sobrenatural. Mas daquele ponto em diante o problema era a própria
construção da identidade pessoal. Quem era eu? Aonde pertencer? O
que fazer?
O Estágio 3 de Brown
Até então essa jornada parecia seguir na direção da
potencialização descrita por Brown mas algo paradoxal também se
fazia sentir. Eu percebia o crescimento pessoal, tanto no campo das
capacidades extrassensoriais quanto nas faculdades cognitivas,
introspecção, cultura geral entre outras. Por outro lado, as
experiências semelhantes à EFC original escassearam. Se no primeiro
mês elas ocorreram com frequência, a partir de então elas passaram
a acontecer uma ou duas vezes por ano, ou menos. A questão era
intrigante, mas normal de acordo com o grupo onde eu estava. Em tese,
nossos “guias espirituais” davam uma ajuda de início, mas
deixavam que o aprendiz se capacitasse para desenvolver o fenômeno
por si, dali em diante. A explicação era plausível e condizente
com a sensação de ter experiências sentidas como provocadas por
agentes externos, não tanto por minha vontade própria, mas por
minha passividade.
O problema da escassez de projeções parecia respondido. Era questão
de persistir. Com o treino dedicado e prática eu seria capaz de
desenvolver a habilidade. Entretanto, hoje, quando observo estas
ideias e as comparo com o Estágio 3, de Brown, sou compelido a rever
este problema e verificar se não deixei passar algum detalhe.
Eu estava integrando achados à minha nova visão de mundo e de self.
Enxergava a EFC como uma habilidade a ser desenvolvida. Mas ao pensar
assim, não teria eu dado um significado novo à EFC, a qual não
fazia parte da vivência inicial? As primeiras projeções (tanto
quanto as seguintes) não foram exatamente resultados de um
treinamento ou esforço. Do contrário, elas vieram a partir de um
estado mental entusiasmado com possibilidades incríveis e jamais
antes cogitadas. Estas possibilidades não se referiam à ambição
pessoal de “ter poderes sobrenaturais”, mas de um espírito de
deslumbramento e abertura para um universo que pode existir para além
de nossas percepções e noções costumeiras.
Hoje me questiono sobre algo que, na época,
considerei normal. Relatos e depoimentos sobre EFCs deixavam de me
surpreender. Lembro-me de como as primeiras leituras sobre o assunto
me empolgavam. Mas depois de ter a “explicação” e me
familiarizar com os “mecanismos” e “conceitos”, atravessei
uma espécie de “desencantamento” sobre o assunto. Talvez ao
admitir a possibilidade, tópicos ligados à EFC não mais me
surpreendiam. Paranormalidade havia perdido o status
de desconhecida. Mesmo obras que carregavam mensagens e ensinamentos
extraídos das vivências extracorpóreas não tinham mais tanto
poder de provocar-me aquela curiosidade que ajudou a desencadear os
fenômenos iniciais. Parece que, a partir de então, experiências
novas pudessem ser captadas pela cognição, sem necessitarem
intermédio das percepções sensíveis.
Ao sentir-me em paz com a ideia de “ser diferente”, adotei uma
nova visão de mundo e um novo modo de vida. Portanto, não penso que
“integrei” o que era novo ao que era a antiga parte da minha
vida. Ao invés disso, substituí um pelo outro (ainda que as coisas
não possam ser reduzidas a simplificações do tipo um-ou-outro).
Naquela época eu estava “deixando para trás” um mundo (ou “o”
mundo?) para vivenciar um novo self, mais
do que “entrando” nele ou “agregando-lhe” algo. Não sei
dizer, também, se havia outra alternativa concreta ao meu alcance.
Talvez, como na piracema dos peixes ou na migração das aves,
deslocamentos sejam parte necessária do amadurecimento.
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| Primeiro livro publicado |
Fiz daquele círculo institucional minha primeira comunidade. Lá eu
dedicava a maior parte das minhas noites e fins de semana. Lá eu
aprendia todo tipo de assunto relacionado ao trabalho em equipe. Lá
eu escrevia artigos para discussão. Foi onde tive meu primeiro
relacionamento afetivo mais longo e, também, meu primeiro casamento.
Se nunca tivera grandes ambições profissionais, a partir de então
levei a situação ao extremo. Usava meus horários extra-classe para
o trabalho voluntário. Minha mãe não escondia a apreensão. Seu
filho, aos 20 anos de idade, aproveitava a possibilidade de não
precisar procurar um emprego durante o período da faculdade. Era uma
preocupação que também se misturava com certa admiração. Logo eu
me tornara professor, palestrante, autor de artigos e entrevistas,
tinha razoável cultura geral e havia adquirido autoconfiança
considerável nas diversas experiências de trabalho voluntário ao
qual éramos expostos na instituição. Como saber se eu estava
melhor lá do que se arranjasse uma profissão de meio período como
estagiário em algum escritório, por exemplo?
Tão logo me formei em Economia, fiz as malas e me mudei para Foz do
Iguaçu, cerca de 900km de distância, e também distante de grandes
centros urbanos, onde se construía o centro principal de estudos
daquele grupo com o qual estava envolvido. Eu estava tão “desligado”
de meu “antigo ego” que nem retornei para a cerimônia de
formatura. Doei quase todos os meus livros para a biblioteca daquela
instituição. Eu sabia que sempre podia voltar para consultá-los,
mas era como se os estudos acadêmicos de até então não tivessem
maior relevância para meu futuro. A cidade não era promissora, em
termos profissionais. Eu começava do zero, com o espírito
aventureiro, me sustentando através de “bicos” ao modo de aulas
de inglês e outros. Por cerca de 3 anos me mantive assim, de maneira
aparentemente despreocupada e inconsequente. Mas eu estava confiante
e, portanto, realizado. Minha vida seguia em direção a um
crescimento pessoal.
Identifico naquele período o que Brown descreve como a transição
entre os Estágios 2 e 3. A “procura de significado” das
experiências havia evoluído para uma “procura de si” (search
of self). Eu procurava o ideal
de self-made man, o
qual era valorizado por nós. Aquilo significava construir minha
carreira por meus próprios meios, sem depender dos antigos laços.
Em 2007, por um aparente golpe de sorte, consegui um trabalho
altamente improvável naquela cidade, como assistente na
representação de uma empresa financeira pequena, multinacional
europeia. Desnecessário dizer que aquilo serviu como mais uma
“confirmação” de que eu estava “no caminho certo”. A partir
de então, graças ao emprego fixo, eu tinha espaço mental para me
preocupar mais inteiramente com a produção intelectual, as
“autopesquisas” tão importantes naquela comunidade. Decidi
escrever meu segundo livro.
Eu estava “grávido” de ideias (como costumamos falar) mas aos
poucos ia percebendo que a iniciativa não era bem-vinda por algumas
pessoas. Em 2011 conseguiram interromper o trabalho editorial em
andamento na instituição. Eu já tinha capacidade e recursos para
publicar por minha própria conta, e foi o que fiz. Eu era a mãe que
sacrificaria qualquer coisa para não abortar o próprio filho. Mas
isso rendeu minha expulsão sumária daquela comunidade. A partir de
então, eu seria desafiado a rever meus próprios conceitos acerca de
tudo.
Passei aproximadamente 18 meses procurando dar novos sentido à minha
nova condição. Os assuntos da “transcendência espiritual”
continuavam a fazer parte das minhas predileções. Por outro lado,
não fazia sentido continuar a abordá-los da maneira como fazia. Eu
havia desenvolvido uma opinião crítica do que eu era e das linhas
de pensamento que costumava adotar. Comecei a desenvolver interesse
muito mais intenso pelo conhecimento autobiográfico. Mais do que
nunca, passei a me interessar pelo meu passado. Se até então eu
fizera uma jornada “progressista” me afastando do passado, agora
o passado era a principal fonte onde eu poderia encontrar
conhecimento a meu próprio respeito.
Se antes eu olharia uma foto da adolescência e sentiria embaraço,
vontade de dizer “como eu era imaturo”, a partir de agora aquilo
capturava em mim uma atenção especial. Eu queria voltar a lembrar o
que se passava naquela mente, para entender como certas coisas tinham
um sentido diferente. Quem eu era? Era como se eu tivesse algo para
aprender com “alguém” que eu costumava ver como mais imaturo. Da
mesma maneira, passei a perceber a família de maneira diferente. Até
então, era a representação de um período no qual eu era filho,
dependente, não um adulto inteiramente formado. Agora, era uma fonte
onde eu podia encontrar minhas origens. Mesmo não intencionalmente,
me percebia analisando neles as minhas próprias raízes. Tornei-me
mais disposto a revisitar minha terra natal.
Esta revisitação não era apenas movida por uma curiosidade
“arqueológica”. Eu tinha também um novo conceito de amizade.
Antes eu acreditava estar rodeado de amigos, mas de repente me senti
como uma peça descartável de uma instituição impessoal. Aquilo
foi um choque. Eu havia construído uma vida em um ambiente
privilegiado, onde era possível desenvolver um sentido pessoal de
transcendência e, de repente, o que parecia um caminho de autonomia e
realização mostrou sua face oposta. Eu era refém das decisões de
meus superiores e não havia nada para levar comigo ao sair. Nem os
amigos, os quais alguns líderes afirmaram que eu não tinha. Foi na
ausência que o valor das amizades provou sua importância e, na
família, eu sabia que contava com um núcleo que não me viraria as
costas.
Minha trajetória de vida tinha sido motivada pelo sentido de
independência, o que refletia não apenas nas relações sociais
como também amorosas e profissionais. O trabalho voluntário
representava a capacidade de desenvolver algo com independência.
Isto possivelmente faz mais sentido no Brasil, onde o trabalho esteve
muito associado à escravidão, em oposição a culturas
tradicionalmente desenvolvidas sob valores de emancipação através
do trabalho. Assim, trabalho voluntário significava “não dependo
de pagamento de ninguém para fazer o que gosto”. Mas esta noção
também se transformava em mim. Mesmo estando bem empregado, com um
bom salário e boa qualidade de vida, não ambicionava continuar
naquela carreira por muito tempo. Eu procurava oportunidades de
negócios em áreas distintas quando, de repente, “do nada”,
comecei a querer trabalhar profissionalmente com aquilo que já era
meu trabalho favorito (algo que pareceu tão óbvio). Eu queria me
profissionalizar nos estudos da mente, não apenas vista pela ótica
biopsicológica, mas também no sentido parapsicológico e
transcendente.
É curioso como o significado de algo muda completamente de tempos em
tempos. Se antes, eu não poderia sujeitar a paranormalidade a uma
fonte de renda, para poder estudá-la de maneira independente, agora
eu me via motivado a colocar este assunto no centro da minha ambição
profissional, para poder me dedicar a ela integralmente.
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| Demonstração "Ganzfeld" na Faculdade Espírita (PR) |
Meu desafio de integrar a paranormalidade à vida é também um
desafio de integrá-la à ciência. Neste ponto passei a me
interessar por outros campos científicos que costumavam ser
menosprezado por minhas antigas lentes paradigmáticas. Assim tomei
contato com a fenomenologia e o estudo das EHEs, entre outros. Digno
de nota como meu antigo “paradigma”, que outrora parecia tão
“superior”, agora parecia tão limitado. Apenas isso já é
material para uma nova pesquisa. A vida fora dos antigos muros era
muito mais inteligente do que eu costumava pensar.
Conforme disse, o modelo de Brown me
motivou a retornar às raizes da primeira EHE. Há 15 anos, o
deslumbramento com o “além” abriu-me a porta para uma
experiência extrassensorial. Esta abertura foi o começo de uma
longa trajetória onde coloquei em plano secundário as questões do
mundo “normal”, em favor de questões “paranormais” ou
“espirituais”. E agora eu trilhava tendência oposta, e as coisas
deste “mundo físico” voltavam a me encantar. Faço uma pergunta
crítica às minhas próprias ambições: qual a experiência
paradigmática preciso agora, se é que preciso? Para fora
deste corpo e deste mundo, ou
para dentro deles?
Será a transcendência entre mundo físico e extrafísico um caminho
de mão dupla?
| Intuição e arte - vivências no Instituto de Parapsicologia (SC) |
E a partir de agora? O que esperar? O que fazer?
Encontro-me em um
ponto de nova definição ou sentido pessoal de ser, de estar com o
mundo e com os outros. Destas duas variáveis devem surgir os
elementos que acrescentem novos sentidos à EHE aqui analisada.
Sinto-me tentado a relacionar minhas expectativas com as duas etapas
seguintes de Brown, nas quais o foco da procura é por um self
superior
e, consecutivamente, um self
universal. Após afastar-me e renunciar meu “antigo eu”, faço um
retorno a ele e, assim espero, num nível mais elevado. Após
renunciar o “antigo mundo”, também retorno a ele em um sentido
“mais universal”. Do resultado destes movimentos, sucessos e
frustrações, motivações e regressões, que poderei encontrar o
que irei me tornar.
Preciso fazer uma observação neste ponto. Não pretendo estimular
um entendimento das etapas mapeadas por Brown como se representassem
etapas “desenvolvimentistas” ou “evolutivas” em direção à
transcendência, criando no leitor uma espécie de desejo por “subir
degraus” neste modelo. O entendo como um modelo de análise, não
necessariamente linear ou progressista. Vivemos impregnados por uma
cultura de valores desenvolvimentistas, mas vejo cada momento da vida
como possuidor, em si mesmo, dos elementos para realizar plenitude e
felicidade, ou vazio e infelicidade. Não percebo mais o tempo como
escada, mas como a sucessão de contextos que podem ser reconhecidos
e vivenciados, cada um, na sua totalidade, se formos capazes.
Como parte do atual processo introspectivo, percebo a necessidade de
revisitar as demais EFCs vivenciadas naquela época. Conforme
mencionei, houve 3 ou 4 logo de início. Talvez as diferenças entre
elas possam me auxiliar na procura de outros significados e
conclusões. E então, preciso tornar a analisar as demais EFCs,
vivenciadas posteriormente, em contextos diferentes. Estas últimas
não posso chamar de experiências iniciais, fazem parte da minha
vivência de viajante extracorpóreo. Haverá algo nelas que ainda
não compreendi?
Referências
Brown, S. (2000). The Exceptional human experience
process: A preliminary model with exploratory map. International
Journal of Parapsychology, 11(1),
69-111.(*)
Vieira, W. (1997). Projections
of the consciousness: A diary of out-of-body experiences. Rio
de Janeiro: IIPC.
White, R.A.
(1994). Exceptional human
experience: Background papers I. Dixhills,
NY: The Exceptional Human Experience Network.
(*) N.
trad.: referência ausente na versão original.






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