Ficha técnica:
Zéfiro: a paraidentidade intermissiva de Waldo Vieira.
Autora: Mabel Teles.
Foz do Iguaçu, Editares, 2014.
ISBN 978-85-98966-93-9; 240 p.
Zéfiro é o guia espiritual que o médium ex-espírita Waldo
Vieira alega ter sido – “paraidentidade” que possui há
milênios. Refiro-me ao mesmo Zéfiro citado por Kardec em suas Obras
Póstumas e por Canuto Abreu em O Livro dos Espíritos e sua
Tradição Histórica e Lendária; espírito que acompanhava a
família Baudin nas seções que motivariam Denizard Rivail a adotar
o pseudônimo Allan Kardec e fundamentar a Doutrina Espírita.
O livro é o primeiro voltado a biografar Vieira, ex-colaborador de
Chico Xavier em Uberaba, na década de 1960. Ajuda a situar datas,
nomes e lugares, e traz fotografias de valor histórico. Além disso,
procura descrever a biografia multi-reencarnatória de Vieira. Por
esses motivos, a obra traz elementos de interesse espírita e revela
(talvez sem querer) um pouco da psicologia desse que participou da
história do Espiritismo. O maior problema do livro, no entanto, é
permanecer fiel à versão do próprio biografado, sem tecer
reflexões mais críticas sobre determinadas questões.
O texto é dividido em três seções, sendo a primeira voltada a
discutir as vidas pretéritas de Vieira e a atual. A segunda seção
descreve períodos entre-vidas, espirituais, de Zéfiro, com destaque
aos seus aparecimentos e comunicações com personalidades do porte
de Emanuel Swedenborg, Honoré de Balzac, Chico Xavier e o próprio
Kardec. Na terceira seção a autora analisa as qualidades do
biografado.
Embora Waldo Vieira dê a impressão de possuir uma supermemória
quanto às suas vidas passadas, e capacidade inata de desdobramento e
clarividência (que o fazem dispensar a necessidade de médiuns de
incorporação), o biografado “conscientizou-se” de ser Zéfiro
na adolescência através de mensagem psicografada por uma “conhecida
médium”. Não se sabe por que o livro omite seu nome, embora
permita especular que tenha sido Maria Leite de Paiva, antiga
conhecida da família.
Logo nesse início o livro já dá indícios do que parece estar
latente na personalidade de Vieira ao longo da vida. O menino,
acreditando ser nada menos do que um dos cicerones de Denizard Rivail
ao universo espiritual, estimulado pelos pais a manter a informação
em segredo, pois as pessoas “não teriam maturidade para
compreendê-lo”, possivelmente trilhou o movimento espírita com o
peso de grandes responsabilidade incutidas, autoimagem engrandecida e
fantasias ilimitadas de incompreensão sobre sua pretensa
“superioridade”. Um exemplo de misturas explosivas que cresciam
nesse rapaz, que teria um infarto aos 28 anos e uma ruptura agressiva
com o Espiritismo quase 3 décadas mais tarde.
Na década de 1960 Vieira colhia realizações junto à Comunhão
Espírita Cristã uberabense. Quase duas dezenas de livros
psicografados (individuais e em parceria com Chico Xavier), viagens e
trabalhos direcionados à pesquisa, trabalhos de caridade, conforme
narrados em Materializações de Uberaba (Jorge Rizzini, 1964)
e As Vidas de Chico Xavier (Marcel Souto Maior, 2003), são
evidências disso. Mas, em Zéfiro, Mabel prefere manter o
discurso vieiriano atual, segundo o qual o biografado era um
“maxidissidente” do Espiritismo, retratado como algo repressor,
conservador e avesso à intelectualidade.
Em 1966 Vieira se desligou dos trabalhos espíritas em Uberaba para
dedicar-se a uma pós-graduação no Japão, à abertura de
consultório no Rio de Janeiro e à direção de empresas ligadas à
Cia. Antarctica Paulista, da família de sua então esposa. Não há
vestígios históricos de uma “dissidência”. Muito pelo
contrário, em 1979 ele retornaria aos círculos espíritas cariocas
e paulistas, publicando Projeções da Consciência (1981 e
1982), nacionalmente divulgado e aclamado naquele meio, além de ter
artigos, entrevistas e uma coluna mensal própria na imprensa
espírita, até 1990.
A ruptura parece ocorrer neste período (anos 90), conforme o autor
funda o próprio grupo o qual lidera de maneira unânime e
incontestável, passando a criticar praticamente todas as áreas e
instituições que não sejam suas próprias “neociências”
(Projeciologia e Conscienciologia). O distanciamento não ocorre
apenas com os espíritas, mas com todos os estudiosos que não
queiram se submeter a ele (alguns registros deste conflito podem ser
encontrados na bibliografia, ao final).
O livro não menciona (ou o faz apenas de passagem) os guias
espirituais que auxiliaram Vieira em décadas anteriores – André
Luiz, José Grosso, Aura Celeste, Tao Mao, Maria Clara, Eurípedes
Barsanulfo e o próprio Emmanuel. Ao invés disso, enfatiza outros
recentes, conhecidos e identificados apenas por Vieira, que
supostamente amparam o grupo dedicado à Conscienciologia, liderado
por ele, em Foz do Iguaçu. Mas é problemática essa omissão numa
biografia, como se fossem esquecidos amigos mais antigos em
privilégio dos recém-conhecidos.
Há também omissões curiosas nas seções que relatam as
reencarnações pretéritas de Vieira. Embora Vieira afirme
lembrar-se de vidas na África sub-saariana, no Egito Antigo, na
China, Grécia, Gália, Império Romano, Cornuália e Espanha, a
autora não levanta o assunto sobre diversas personalidades
históricas que Vieira mais abertamente diz ter sido (ou conhecido).
Com exceção do filósofo Zisi (ca. 481-203 a.C., neto de
Confúcio) e do jurista Aemilius Papinianus (142-212 a.C.),
nada se comenta sobre outras personalidades mais recentes. Um deles
seria Vincencio Juan de Lastanosa (1607-1681), supostamente membro do
círculo social próximo de Vieira em uma de suas vidas espanholas.
Outro é Michel de Nostradamus (1503-1566), personagem que Vieira
“admite” ter sido, quando conversa com seus colaboradores mais
próximos. Ainda no período espírita, Vieira parece ter afirmado
que fora o poeta Robert Browning (1812-1889), cujo pai era o espírito
pretérito de Herminio C. Miranda. Memórias destes personagens
marcantes poderiam contribuir muito, tanto para os estudos da
sobrevivência do espírito quanto para investigações
historiográficas. Por outro lado, tais memórias, no mínimo,
levantariam questionamento de estudiosos independentes, e talvez
fossem até refutadas, colocando em cheque o status inquestionável
que Vieira detém junto aos seus colaboradores.
O livro faz parte de estratégia mais ampla de promover a
Conscienciologia através do seu grande representante, criando quase
um mito em torno dessa figura pública. Participei da compilação
das entrevistas citadas pela autora à introdução. Os outros
trabalhos são o documentário Waldo Vieira: Vida e Obra (Kíria
Meurer), E.M. Mentor Extraterrestre (Comunicons; em
elaboração) e possivelmente um filme baseado no livro Cristo
Espera por Ti (1964), grande sucesso vieiriano consagrado
por Osmar Ramos Filho.
Em suma, Zéfiro apresenta relatos interessantes centrados na
trajetória de Waldo Vieira, compreendendo sua vida atual e supostas
vidas passadas. Por outro lado, o livro omite vidas pretéritas
marcantes no discurso vieiriano e reproduz fielmente declarações
controvertidas sobre sua vida atual. Leitura interessante, mas com
ressalvas.
Referências:
C. Abreu, O Livro dos Espíritos e sua tradição histórica e
lendária, Liv. Espírita Katie King, São Paulo, 2012.
U. de S. Carvalho, Jornal Espírita, 98, 2 (1983).
A. Kardec, Obras
póstumas, FEB, Rio de Janeiro, 2005.
E. C. Monteiro, Correio Fraterno do ABC, 5 (mai. 1983).
O Semeador, 466, 10 (1983).
O. Ramos Filho, O avesso de um Balzac contemporâneo: arqueologia
de um pasticho, Lachatre, Niteroi, 1995.
J. Rizzini, Materializações de Uberaba, LivroFácil-NovaLuz,
São Paulo, 1964/1997.
M. Souto Maior, As vidas de Chico Xavier, Planeta, 2a. Edição,
São Paulo, 2003.
W. Vieira, Folha Espírita, 113, 6 (1983).
Original publicado no Jornal de Estudos Espíritas
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