Waldo Vieira está em todas! Segundo afirma sobre as suas vidas
passadas, ele teria orientado Allan Kardec a adotar este pseudônimo na
compilação da obra espírita. Vieira também teria iniciado Swedenborg, um
dos pioneiros da literatura espiritualista ocidental, além de inspirar o
novelista Balzac a escrever sobre o fenômeno do “desdobramento”.
Vieira também afirma ter imprimido o “holopensene” da
intelectualidade nas civilizações antigas, e testemunhar as grandes
“reurbanizações” planetárias promovidas por espíritos evoluídos desde o
século XII. Ele poderia ser assim confundido como uma entidade divina em
si mesma.
Um livro foi recentemente lançado pela comunidade conscienciológica
de Foz do Iguaçu, como parte de um projeto coletivo de promover esta
imagem quase hagiolátrica de Waldo Vieira.
É a narrativa de suas vidas passadas, considerada por muitos
conscienciólogos como “fatos autoevidentes”. O leitor cético vai
obviamente duvidar, enquanto o crente sentirá a convicção de estar no
caminho correto…
Leia a seguir minha resenha deste livro:
Resenha
Zéfiro: a paraidentidade intermissiva de Waldo Vieira.
Autora: Mabel Teles.
Foz do Iguaçu, Editares, 2014.
ISBN 978-85-98966-93-9; 240 p.
Como contribuição inegável ao entendimento da vida de Waldo Veira,
Zéfiro é o primeiro livro dedicado a registrar a biografia do líder
da Conscienciologia, tecida através de uma perspectiva
reencarnatória. O livro ajuda a situar datas, nomes e lugares que o
biografado menciona de modo menos preciso em suas conversas, e também
traz fotografias de valor histórico. Zéfiro é o nome pelo qual é
conhecido em outras esferas, há milênios.
O livro é dividido em três seções, sendo a primeira voltada a
discutir as vidas pretéritas de Vieira (no Egito, China, Grécia,
Gália, Itália, Inglaterra, Espanha) e a atual. A segunda seção
descreve os períodos entre-vidas, espirituais, de Zéfiro, com
destaque aos seus aparecimentos e comunicações com personalidades
do porte de Emanuel Swedenborg, Honoré de Balzac, Allan Kardec e
Chico Xavier, bem como seu papel central em comunidades extrafísicas
“avançadas”. Na terceira seção a autora procura analisar as
qualidades do biografado. Uma resenha não substituirá a leitura do
trabalho original, tanto pela riqueza de detalhes apresentados quanto
pela chance de ler citações diretas e raras do biografado sobre si
próprio.
A obra escrita pela jornalista Mabel Teles faz parte de um projeto
capitaneado por organizações “oficiais” da Conscienciologia,
sediadas em Foz do Iguaçu. Em 2011 são realizadas entrevistas
coletivas, fechadas, com o intuito de produzir publicações acerca
de 3 assuntos: a biografia vieiriana, “EM” ou o extraterrestre
que o acompanhou no plano espiritual por algumas décadas, e Zéfiro,
identidade multimilenar de Vieira no plano espiritual. Conforme a
autora, voluntaria no círculo próximo a Vieira, foi “oportunidade
de adentrar nos bastidores extrafísicos da Evoluciologia,
apreendendo alguns dos pilares norteadores do Maximecanismo
Multidimensional Interassistencial, do qual ele participa de modo
lúcido.” (p. 9, grifos da autora).
Embora muito pouco seja novidade às pessoas que convivem diariamente
com Waldo Vieira, o grande público pode agora ter contato com a
narrativa autobiográfica longa e encadeada do mesmo, que impressiona
por suas fantasias de grandiosidade. Por “fantasias” não me
refiro a ter ou não vivido em determinado período – tal
julgamento está aquém de minha capacidade –, mas pela análise
inflada que faz sobre seus feitos e experiências.
O livro se desenvolve neste espírito promotor. A autora adverte o
leitor para que “não acredite em nada e tenha suas próprias
experiências”, embora não demonstre o que exatamente ela “não
acreditou” ou quais “experiências próprias” estão inseridas,
para poder afirmar o que afirmou. Teles parece subscrever de maneira
irrestrita às versões vieirianas, sem considerar eventuais indícios
em contrário. A autora parece prever esse tipo de crítica ao
informar que o leitor não deve esperar dela “total isenção”,
tendo sido “a mais sincera e franca possível [e] expressando
livremente os [seus] pontos de vista” (p. 14). Contudo,
parcialidade, sinceridade e liberdade não deveriam servir de
pretexto para não ter aplicado maior senso crítico aos achados e
colocado as convicções pessoais em perspectiva.
Desde clássicos como Des Indes à la Planète Mars (T.
Flournouy, 1900), pesquisadores têm entrevistado médiuns acerca de
seus relatos e alegados poderes, sem intenção de desmenti-los ou
confirmá-los. Em O Self Perfeito e a Nova Era, o antropólogo
Anthony D’Andrea descreve qualidades parapsíquicas de Vieira sem
entrar no mérito de sua veracidade, mais preocupado com aspectos
socioculturais da Conscienciologia. Por outro lado, O Avesso de Um
Balzac Contemporâneo (Ramos Filho, 1995) apresenta indícios
impressionantes sobre as capacidades extraordinárias de Vieira, que
tornam justificável sua investigação. Contudo, aceitar de modo
irrestrito os “parafatos” mais fabulosos informados pelo
biografado aproxima o conteúdo do livro com o gênero de contos
(estória), ao invés de qualificá-lo como trabalho biográfico
(história).
Entretanto, mesmo dentro da ótica conscienciológica, há ausências
muito estranhas nesta biografia reencarnatória. Por exemplo, o
erudito espanhol Vincencio Juan de Lastanosa (1607-1681), sobre o
qual Waldo Veira discorria constantemente, como se houvesse
participado dos círculos sociais desse pensador. Vieira mesmo avisa
aos voluntários que, se fosse o próprio Lastanosa, não teria
tocado no assunto.
Outra lacuna inacreditável é omitir Michel de Nostradamus
(1503-1561). Vieira fazia várias insinuações de ter sido o
próprio. As vidas na França, onde foi alquimista e também
escultor, tendo inclusive esculpido gárgolas que continuam de pé, e
trabalhado com plantas psicoativas, e a familiaridade com que
discorre sobre Nostradamus, não aparecem no livro.
Apesar de mencionar os espíritos que participam atualmente do
panteão conscienciológico, o livro não menciona outros que também
trabalharam com Vieira – André Luiz, José Grosso, Aura Celeste,
Tao Mao, Maria Clara (além do próprio Emmanuel). Estas entidades
receberam, inclusive, agradecimento do próprio Waldo Vieria em
Projeções da Consciência. Seriam elas “muito espíritas”
para figurarem na atual biografia?
Além destas lacunas reencarnatórias, o livro omite claras
discrepâncias entre a versão vieiriana e os dados empíricos reais.
As fotografias ajudam a colocar por terra a versão de “menino
pobre” que o biografado cria sobre si mesmo, uma versão já
duvidosa para um filho de professora e dentista que teve Vicente
Lopes Perez como preceptor.
A obra tampouco analisa a ruptura de Waldo Vieira com o Espiritismo,
aceitando a versão de que a mesma ocorreu em 1966. Vieira busca
caracterizar o movimento espírita como repressor e conservador,
enquanto as realizações daquela época indicam o contrário –
ajustamento, sinergia e colaboração mútua. Exemplos disso são as
narrativas sobre Vieira em Materializações de Uberaba (Jorge
Rizzini, 1964) e As Vidas de Chico Xavier (Marcel Souto Maior,
2003), e a vasta literatura psicografada de sua autoria que continua
a ser publicada pelas editoras espíritas.
O que Vieira rotula de sua “(maxi)dissidência”, em 1966, parece
ser mais um afastamento pessoal dos trabalhos psicográficos e
assistenciais em Uberaba. Em 1979 ele retornou ao seio do movimento
espírita carioca e paulista, publicando Projeções da
Consciência (1981 e 1982), nacionalmente divulgados e aclamados
naquele meio, além de ter artigos, entrevistas e uma coluna mensal
própria na mídia espírita, até 1990.
Por fim, o livro tece inúmeros elogios ao caráter “aglutinador”
de Zéfiro, e sua capacidade notável de trabalho em equipe. Os fatos
não são tão abonadores, pois Vieira parece deixar amplo rastro de
desafetos por onde passa. Por exemplo, os 20 colaboradores que
figuram nos agradecimentos da sua obra-prima Projeciologia (1986),
paulatinamente se afastam do mesmo e não recebem reconhecimento pela
atual administração da rede conscienciológica. Ao longo das
últimas três décadas, colaboradores supostamente “multimilenares”
não apenas deixaram esta comunidade, mas mantêm uma evidente má
impressão do mesmo. O mais comum, entre ex-voluntários, é um
sentimento de frustração e rejeição como efeitos de relações
desgastantes dentro do grupo. Como isso encaixa em um discurso onde
Zéfiro seria um grande aglutinador de personalidades geniais e
revolucionárias?
O livro é fonte importante para estudos psicobiográficos sobre
Vieira. É contínua a avaliação engrandecida que faz de seus
trabalhos “assistenciais” contrastada com a avaliação
desabonadora que aplica sobre os próprios seres “assistidos”.
Somados à hostilização das críticas e a maneira insistente de
considerar-se um incompreendido, entre outros, instigam a pesquisa
quanto a eventuais traços de personalidade narcisista ou de perfil
grandioso delirante do biografado.
Em suma, “Zéfiro” apresenta uma coletânea interessante de
estórias centradas na trajetória de Waldo Vieira, compreendendo a
sua vida atual e relatos do mesmo sobre suas vidas passadas mais
marcantes. Por outro lado, o livro apresenta lacunas estranhas ao
omitir vidas pretéritas reconhecidamente marcantes no discurso
vieiriano, além de reproduzir ingenuamente algumas de suas
declarações sobre a vida atual, particularmente a sua infância, o
seu relacionamento com Chico Xavier e o movimento espirita. Leitura
interessante, mas com ressalvas.
Original publicada no blog Espiritualismo e Ceticismo Espiritualismo e Ceticismo

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